DEBATE

‘A sociedade precisa avançar e se
unir novamente’

Em palestra sobre o neologismo “aporofobia”, Marcelo Branco destaca a preocupação com a divisão do País entre ricos e pobres e defende uma reflexão sobre o “nós contra eles”

14/11/2018

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Marcelo Branco lembrou que o conceito de aporofobia também ajuda a entender o que vem ocorrendo em regiões do Brasil que têm recebido fluxos de imigrantes, como no caso do Acre

 

Palavra que só muito recentemente passou a integrar os dicionários espanhóis, aporofobia foi o tema do Encontro Democrático realizado nesta quinta-feira (8), que teve como convidado o administrador de empresas e mestre em engenharia pela Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo) Marcelo Branco. O neologismo – que nomeia o medo, repúdio ou aversão aos pobres – vem sendo considerado por pensadores como um termo revolucionário, que pode transformar a realidade social num momento em que várias regiões do planeta enfrentam conflitos e problemas sociais decorrentes de ondas migratórias.

No debate promovido pelo Espaço Democrático, a fundação do PSD para estudos e formação política, Marcelo Branco destacou a preocupação com a divisão que se observa na sociedade brasileira, onde parece que o País está dividido entre os pobres – que estariam se aproveitando de benefícios sociais como o Bolsa Família sem produzir nada – e os ricos, que seriam beneficiários de favores e corrupção política.

Para ele, essa visão conflituosa não é uma característica típica da sociedade brasileira, mas se acentuou nos últimos anos em razão da crescente valorização do consumismo, da ideia de que é mais importante ter do que ser. “No Brasil, esse conflito se acirrou nos últimos tempos por motivos políticos, mas está trazendo prejuízos para a sociedade”, afirmou Marcelo Branco, para quem é necessário que se faça uma reflexão sobre o tema.

Assista a íntegra do debate na página do Espaço Democrático no Facebook

Segundo ele, vivemos um momento nevrálgico após o “nós contra eles” do período eleitoral e é preciso compreender esse cenário e tentar avançar no sentido de unir novamente a sociedade. “Para isso, precisamos recuperar o respeito pelo ser humano que já tivemos no passado e acredito que isso só será conseguido por intermédio da educação”, explicou.

Marcelo Branco lembrou que o conceito aporofobia também ajuda a entender o que vem ocorrendo em regiões do Brasil que têm recebido fluxos de imigrantes, como no caso do Acre (que em 2015 recebeu muitos haitianos) e Roraima (com a chegada de venezuelanos expulsos de seu país pela miséria). “Assim como em outras regiões do mundo onde ocorrem ondas migratórias, não se trata de repúdio aos estrangeiros – que são muito bem recebidos em outras situações – mas às pessoas pobres, que não têm nada a oferecer em troca dos benefícios sociais que recebem e das dificuldades que causam à sociedade”, explicou.

Alda Marco Antonio, coordenadora nacional do PSD Mulher e ex-secretária de Assistência Social de São Paulo, que também participou do debate, lembrou que a história da humanidade é a história das migrações e que o Estado de São Paulo é um símbolo da importância dos imigrantes para o desenvolvimento econômico e social.

Para ela, “São Paulo se tornou o que é hoje graças ao trabalho de estrangeiros que chegaram aqui empurrados pela pobreza, mas hoje se observa uma reação negativa aos novos imigrantes que estão chegando. Isso está errado, pois eles enriquecem a sociedade à qual se integram, uma vez que chegam com muita vontade de superar a pobreza e vencer”. Alda concluiu lembrando que “precisamos dar esse entendimento às nossas famílias e crianças, é preciso que todos tenham o sonho da solidariedade e do entendimento”.

Palavra do ano

Como Marcelo Branco lembrou em sua palestra, aporofobia é um conceito criado pela filósofa espanhola Adela Cortina, da Universidade de Valência, para caracterizar a reação aos movimentos migratórios. Ela própria conta, em vídeo na internet, que a palavra não constava dos dicionários espanhóis até o dia 20 de dezembro de 2017, mas nove dias depois foi considerada pela Fundación del Español Urgente (FundéuBBVA), criada pela Agência Efe e pela instituição financeira BBVA, como a palavra do ano, superando concorrentes como bitcoin, uberização e fake news.

O diretor-geral da fundação, Joaquín Muller, explica a escolha lembrando que “aporofobia dá nome a uma realidade, a um sentimento que, mesmo estando muito presente em nossa sociedade, ninguém havia batizado”. Para ele, convêm recordar a importância de dar nome às coisas para torná-las visíveis. “Se não têm nome, essas realidades não existem ou ficam difusas, não podem ser denunciadas ou defendidas”, conclui.

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