DROGAS

Família deve ser ouvida no debate sobre internação compulsória

Para o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, ideologias não podem atrapalhar a discussão sobre dependência química. “A pergunta é, se fosse um problema nosso, o que faríamos?”

17/07/2017

FacebookWhatsAppTwitter

Para Ronaldo Laranjeira, o debate sobre o tema vem sendo dificultado pela politização.

 

Para cada usuário de drogas químicas, existem outras quatro pessoas diretamente afetadas, que precisam ser envolvidas na discussão sobre os caminhos a serem adotados para a recuperação do dependente. Esse foi o alerta feito pelo psiquiatra Ronaldo Laranjeira, coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo e PhD em Dependência Química na Inglaterra. Ele participou, na sexta-feira (14), de encontro promovido pelo Espaço Democrático – a fundação do PSD para estudos e formação política – para debater a questão da internação compulsória de dependentes químicos.

Transmitido ao vivo pela página do Espaço Democrático no Facebook, o encontro integra uma série de debates que vêm sendo realizados há mais de dois anos, sempre com o objetivo de avaliar temas de interesse da sociedade, com impacto direto na atuação daqueles que estão ou pretendem entrar na vida pública. As palestras e debates são publicadas na íntegra no site do Espaço Democrático.

Em sua palestra, Ronaldo Laranjeira lembrou que a lei já estabelece a possibilidade de um juiz decretar a internação compulsória de um usuário, assim como prevê a internação voluntária e a involuntária, que requer um laudo médico comprovando a necessidade da medida. Contudo, ressalvou, a aplicação da lei ainda gera muita polêmica e o debate sobre o tema vem sendo dificultado pela politização.

Em sua opinião, porém, não há espaço para discutir ideologias. “A luta antimanicomial foi muito importante, mas hoje, passados 15 anos da reforma psiquiátrica, é preciso reconhecer que a rede pública deixou de criar soluções efetivas para os casos de saúde mental mais graves e extremos, e que por sua natureza precisam de internação e tratamento intensivo, com medicamentos e equipe multidisciplinar”, disse.

Ele explica que a dependência química é uma doença crônica, tal como câncer, diabetes e hipertensão. Em estágios avançados ou quando o problema torna-se agudo, para qualquer outro problema de saúde indica-se internação hospitalar de curta ou média duração visando à estabilização do quadro. “Por que então deve ser diferente com quem é usuário de drogas? São doentes graves, que precisam de ajuda médica e psicológica. Muitos possuem comorbidades, como Aids, sífilis, tuberculose e hepatites virais, entre outras doenças associadas”.

Segundo Ronaldo Laranjeira, a maioria das famílias quer a proteção contra os efeitos das drogas e se o debate sobre a internação compulsória se prolongar, sem ações que enfrentem o problema, corre-se o risco de não chegar a lugar nenhum “e continuarmos discutindo a questão por décadas”.

Laranjeira defendeu a internação involuntária. Segundo ele, o debate deve ser contextualizado, independentemente de partidos ou tendências políticas. O principal é proteger as famílias. “A pergunta que temos de fazer é, se fosse um problema nosso, alguém da família, o que faríamos? Vamos pelo convencimento, pela educação, os direitos individuais devem ser protegidos e a internação involuntária nunca é a primeira opção. A internação compulsória não deve ser nunca a primeira opção. Mas a droga não é um comportamento individualizado. Temos de proteger o indivíduo de si mesmo e da família que está sendo afetada pelo consumo.”

Com base em sua experiência como coordenador do programa Recomeço, que oferece diversas formas de tratamento e recuperação para dependentes de drogas químicas, o psiquiatra diz que “as evidências mostram que o sucesso da internação involuntária é, no mínimo, igual ao da voluntária. Em uma semana, as involuntárias transformam-se em voluntárias. É um ato de saúde, misericórdia e sociedade civilizada”, afirmou.

Ricardo Patah: É preciso mais atenção das instituições para o assunto

O coordenador do PSD Movimentos, Ricardo Patah, presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT), participou do debate promovido pelo Espaço Democrático e defendeu a necessidade de uma maior atenção, por parte das instituições, à questão dos dependentes químicos. “O que a gente percebe é que aqueles que estão na Cracolândia são considerados, pelas pessoas de maneira geral, como invisíveis ou zumbis. Este trabalho que está sendo feito aqui no Espaço Democrático é um indicativo importante de que o partido tem de abraçar a dimensão desse problema”, afirmou.

A pedagoga aposentada Lucila de Araújo Rodrigues, que trabalhou no Programa Turma da Rua, implantado nos anos 1980 pela então Secretária do Menor, Alda Marco Antônio (PSD), lembrou que “a internação involuntária tem de acontecer, sim, não apenas nos casos de gravidez. Em alguns casos, tem de ser a compulsória mesmo, precisamos tentar. Já vi muitos meninos morrerem por causa da droga.”

FacebookWhatsAppTwitter

COMENTÁRIOS

Deixe seu comentário!




*

FacebookWhatsAppTwitter