O Globo: ‘Hidrelétricas sem reservatórios foram tiro pela culatra’

Construir hidrelétricas com reservatórios menos profundos e que se estendem por vastas áreas, cuja proposta era proteger o ambiente, foi uma medida errada, pois a alternativa tem sido construir usinas térmicas, bem mais caras e com impacto muito mais poluente, avalia o jornal fluminense em seu editorial.

21/03/2014

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O Globo – Editorial

Como um país que dobrou sua capacidade de geração de energia elétrica em um período relativamente curto, de menos de vinte anos, pode se ver na contingência de racioná-la, mesmo que o consumo não tenha se expandido em igual proporção? A razão é que essa expansão de capacidade não tem igual correspondência com a chamada energia firme, aquela que é efetivamente assegurada.

A maior parte das hidrelétricas, por exemplo, só consegue assegurar ao longo de um ano ano, em média, o equivalente à metade de capacidade de geração. Nos momentos que os rios estão cheios, no máximo de sua vazão, tais usinas podem até operar a plena capacidade. A futura usina de Belo Monte, no Rio Xingu, contribuirá pouco para o sistema interligado em alguns meses do ano, enquanto só no período da cheia poderá operar a 100%. As usinas eólicas também costumam assegurar energia equivalente a menos de 40% de sua capacidade, e isso quando há bons ventos. A vantagem é que há uma complementaridade com o sistema hidráulico; geralmente venta mais quando chove pouco no Nordeste, e vice-versa . E, à noite, quando o consumo de energia diminui na região, os ventos são mais predominantes, e, nesse horário, usinas hidráulicas podem ser menos acionadas, possibilitando o enchimento de reservatórios. E aí está o xis da questão. Na matriz elétrica brasileira, a energia precisa ser armazenada sob a forma de água acumulada nos reservatórios. No passado, essa acumulação de água possibilitava o planejamento da oferta de energia por cinco anos à frente. Esse horizonte foi se estreitando à medida que novas hidrelétricas foram construídas sem reservatórios. No quadro atual, a energia acumulada nos reservatórios existentes só poderia suprir o país por cinco meses. Usinas com reservatórios de acumulação são aquelas em que a vazão dos rios permite que, ao menos durante uma fase do ano, se guarde parte da água junto (a montante) às barragens. As demais usinas são a fio d’água, porque não há essa acumulação, e o volume de água que chega às barragens é o mesmo que passa pelas turbinas e pelas comportas dos vertedouros. Assim, quando os rios estão cheios, as usinas podem operar a plena carga. Por causa da altura das barragens, uma usina a fio d’água pode represar água a montante, como é o caso de Itaipu, mas tecnicamente o lago formado não é considerado reservatório.

A topografia muitas vezes ajuda a formação de reservatórios e esse é o caso dos vários existentes. Nas regiões mais planas, reservatórios podem ser menos profundos e se estender por vastas áreas, o que não se admite nos critérios de proteção ambiental. Esse foi o argumento que acabou prevalecendo no Brasil para se banir do cenário a construção de novas hidrelétricas com reservatórios de acumulação. Mas, se o propósito foi proteger o ambiente, o tiro saiu pela culatra, pois a alternativa tem sido construir usinas térmicas, bem mais caras e com impacto muito mais poluente.

 

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