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Henrique Meirelles: ‘Extremismo à americana’

Ex-presidente do BC avalia a mudança no perfil dos eleitores americanos, que reflete na disputa das primárias dos Estados Unidos - nomes que assustam o establishment político de centro-esquerda e centro-direita, que se reveza no poder e construiu a força do país.

29 de fev de 2016

Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central e colaborador do Espaço Democrático

Anos atrás, quando presidia organização global com sede nos EUA, alguém me deu forte tapa nas costas durante recepção a clientes em Nova York: “Henrique, bem-vindo a Nova York”. Era Donald Trump. Ele já era um grande empreendedor, mas de trajetória instável. Naquele momento, passava por processo de reestruturação de dívidas.

Trump então contou episódio que mostra bem seu estilo e verve. Ao ser abordado por mendigo na rua, ele retrucou: “Você não tem dinheiro, está zerado. Eu, somando tudo o que tenho e devo, estou no vermelho em US$ 1 bilhão. Você está melhor que eu”.

Por essas e outras, nas eleições primárias do Partido Republicano, Trump era visto como candidato folclórico que animaria o pleito até ser eliminado. Mas, para desespero do establishment republicano, ele fica cada vez mais forte e tem chances reais de levar a candidatura presidencial, com suas propostas populistas e extremistas, que incluem a construção de um muro na fronteira com o México e o aumento da força econômica e diplomática dos EUA no mundo.

Seu mantra é “vamos restaurar a grandeza dos EUA”. Seu maior aliado é a crise de confiança no sistema político americano.

Do lado democrata, a favorita ainda é Hillary Clinton, mas ela vem sendo ameaçada por um candidato que também se alimenta da desconfiança em relação ao sistema político e que, nos padrões americanos, seria um socialista –Bernie Sanders. Ele propõe intervencionismo do governo e programas sociais contra a desigualdade de renda.

Candidatos como Sanders e Trump crescem porque o modelo aberto das primárias facilita candidaturas de “outsiders”. Isso, entre outras consequências, vem barrando o pluripartidarismo, já que postulantes de várias tendências disputam candidaturas nos partidos hegemônicos.

Essas eleições assustam o establishment político de centro-esquerda e centro-direita, que se reveza no poder e construiu a força do país. Elas podem sinalizar transformação mais profunda nos EUA, tendo como um dos principais vetores a entrada crescente de imigrantes, principalmente latinos, que vêm alterando o eleitorado do ponto de vista político, cultural e de valores.

Temos, de um lado, mais eleitores a favor de um Estado generoso e, do outro, radicalização de setores importantes que rejeitam maior ativismo estatal e creem no trabalho e no mérito individual, mesmo que gerem desigualdades.

Ao final do processo eleitoral, em novembro, os americanos podem eleger Hillary a primeira presidente mulher. Mas as primárias mostram que os EUA estão mudando, e isso terá impactos importantes no mundo dada a força americana e sua projeção global.

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