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Abram Szajman e Ricardo Patah: Enxugar gelo

Em artigo, o coordenador do PSD Movimentos e o presidente do FecomercioSP garantem: Continuar a contar apenas com o binômio commodities e crédito, aliado a reduções pontuais de impostos em alguns segmentos, é miopia.

02 de jul de 2012

Abram Szajman, presidente da FecomercioSP, Ricardo Patah, coordenador do PSD Movimentos 

O modelo brasileiro de crescimento, centrado na exportação de commodities valorizadas e na expansão de crédito ao consumo interno, dá mostras de esgotamento.

Os resultados do Produto Interno Bruto (PIB), de apenas 2,7% em 2011 e de pífios 0,8% no primeiro trimestre deste ano (com expansão de apenas 0,1% da produção industrial), são preocupantes.

O crédito totalem relação ao PIBsaltou de 24,7% no início de 2005 para 49,6% atualmente. A facilidade de financiamento deu fôlego a muita gente, mas também criou um buraco enorme no bolso dos consumidores: hoje, 14 milhões de famílias não conseguem pagar as dívidas.

Nas contas externas, o déficit em 2011 foi de US$ 52,6 bilhões, recorde negativo nas transações correntes desde 1947, que tende a crescer. Preocupado em vender commodities, o Brasil aumentou as importações de serviços e mercadorias, ao mesmo tempo em que menosprezou a produção e exportação de bens de valor agregado.

Nessa situação, continuar a contar apenas com o binômio commodities e crédito, aliado às intervenções pontuais de redução de impostos em alguns segmentos, é miopia que compromete o parque produtivo como um todo e afeta o setor de comércio e serviços, responsável pelo excelente desempenho atual do mercado de trabalho.

Equivale a enxugar gelo, pois não enfrenta os entraves sobejamente conhecidos como infraestrutura precária, educação e qualificação profissional insuficiente, burocracia e tributação excessivas e arcaicas.

Mais do que repensar a política econômica, o momento que vivemos exige a definição de um projeto de desenvolvimento alicerçado em novos paradigmas.

A redução das taxas de juros descortinou um horizonte mais amplo, ao sinalizar a superação de décadas de financismo selvagem. Mas não é suficiente para garantir a elevação da poupança e o consequente aumento do investimento produtivo.

Dotar o país de condições para concorrer no mercado internacional é algo que depende muito mais de pesquisa, ciência e tecnologia aplicadas à produção do que de isenções fiscais ou de um eventual câmbio favorável.

Quanto ao mercado interno, em vez do protecionismo contra o produto importado, inaceitável por restringir as possibilidades de escolha do consumidor, é mister garantir redução dos custos para a indústria, que por sua vez não precisa pretender fabricar tudo, e sim se concentrar no que sabe fazer melhor.

Nas relações de trabalho, não é admissível que patrões e empregados não tenham autonomia para fazer acordos mutuamente vantajosos porque a camisa de força da lei restringe a liberdade e o alcance das negociações entre as partes.

Não deve, finalmente, o Brasil abdicar da condição de líder socioambiental que a conferência Rio+20 novamente evidenciou, apesar das limitações de seus resultados. Isso significa que o nosso desenvolvimento não pode ser feito à custa de desmatamento e de energias poluidoras, assim como é fundamental que prossigamos na retirada de compatriotas da pobreza e da miséria, garantindo a todos, no mínimo, o direito a três refeições por dia.

Em resumo, parar de enxugar gelo significa abdicar da improvisação em prol da adoção de uma estratégia de longo prazo, baseada em educação de qualidade, inovações tecnológicas e investimentos produtivos públicos e privados.

No presente cenário mundial de crises e incertezas, temos a possibilidade e a responsabilidade de indicar caminhos para conciliar um crescimento vigoroso e continuado com um processo civilizatório que coloque a economia a favor da vida humana, e não o contrário.

Artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo em 2 de julho de 2012.

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