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Henrique Meirelles: O trânsito de São Paulo

Em artigo, o ex-presidente do Banco Central comenta propostas para este desafio.

15 de out de 2012

Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central e coordenador do grupo de Política Econômica do Espaço Democrático

O trânsito de São Paulo lembra aquela experiência clássica com o sapo na água fervente. Quando o sapo cai dentro dela, salta rapidamente. Mas se ele está dentro da água enquanto a temperatura sobe gradualmente, o sapo morre passivamente.

Seriamos todos sapos vivendo a gradual imobilização de São Paulo?

De 1982 a 2003, o Brasil cresceu a taxas pouco acima de 2% ao ano. O país ajustou-se para crescer a taxas baixas. Já no período de 2004 a 2010, a economia brasileira cresceu a taxas médias perto de 5% ao ano. Os benefícios do crescimento transformaram o Brasil, mas temos também que enfrentar seus custos e nos ajustar.

O trânsito nas grandes cidades é uma das consequências do despreparo para crescer a taxas mais altas. Com a estabilidade econômica, mais renda e crédito, os brasileiros começaram a realizar o sonho de ter seu carro. Embora esse movimento histórico tenha elevado a arrecadação tributária, não gerou melhora da malha viária urbana capaz de absorver a nova frota e os novos motoristas, prova da incapacidade dos poderes públicos, até este momento, de prover infraestrutura que sustente um crescimento vigoroso.

São Paulo é outra história. Centro industrial, financeiro e comercial do país, a produtividade da cidade afeta a todos os brasileiros. Cada hora que um trabalhador perde no trânsito paulistano afeta a produção nacional.

Na maioria dos países, o centro econômico coincide com o político e o administrativo, facilitando a alocação prioritária de recursos na principal máquina produtiva do país. Londres, Paris, Buenos Aires, Santiago, Seul e muitas outras demonstram tal fato (os EUA são a exceção que confirma a regra, pois lá a atividade econômica é descentralizada).

Cedo ou tarde, o Brasil deverá enfrentar esse enorme problema, agudizado pela crise da infraestrutura, porém mais profundo e abrangente do que ela.

Temos de pensar estrategicamente um modelo de governança que viabilize o trabalho conjunto dos atores públicos e privados, para efetuar intervenção estrutural no transporte da metrópole paulistana.

São Paulo precisa não só triplicar a extensão do metrô, mas também criar linhas integradoras que conectem outras linhas, formando uma rede que atinja todos os pontos de alta densidade de tráfego de pessoas. E as linhas de trem devem ser modernizadas e transformadas em linhas de metrô de alta densidade.

A dimensão do desafio é enorme. Será possível vencê-lo se for tratado como necessidade nacional. Um sistema de transporte coletivo capaz de transportar a população com rapidez, segurança e conforto é o mínimo que uma metrópole da sétima maior economia do mundo deve oferecer.

                                       Artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo em 14 de outubro de 2012.

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