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Henrique Meirelles: ‘A vida como ela foi’

Ex-presidente do BC explica, em artigo, como o ajuste fiscal realizado a partir de 2003 foi fundamental para que o Brasil saísse da crise rapidamente em 2008/2009.

11 de ago de 2013

Henrique Meirelles, coordenador do Conselho de Política Econômica do Espaço Democrático e ex-presidente do Banco Central

O entendimento dos erros e acertos do passado são fundamentais para a formulação de políticas corretas para o presente e para o futuro.

A tendência natural é olhar o passado com olhos do presente, uniformizar diferentes situações, fases, acertos e falhas e submetê-las a uma análise muito condicionada pelo presente.

Lições importantes foram dadas pela estabilização da economia na década passada e pelo crescimento elevado do segundo semestre de 2003 até 2008, que forneceu as bases para a saída rápida e forte da crise de 2008/2009.

O crescimento de 1981 até 2003 foi, em média, pouco acima de 2% ao ano, e entramos 2003 com crises cambial, fiscal e monetária.

É fundamental compreender o forte ajuste fiscal e monetário iniciado em 2003: o governo aumentou a meta do superavit primário para 4,25% do PIB (e ainda entregou resultado maior no primeiro ano), enquanto a taxa Selic foi elevada a 26,5%, sendo ajustada depois para manter a inflação na meta.

Esse ajuste numa economia já em desaceleração gerou forte contração do consumo doméstico, que, por sua vez, gerou excedentes exportáveis, os quais foram o caminho da recuperação.

Paralelamente, ocorreu vigoroso choque de confiança, fruto do ajuste duro e da surpresa com o mesmo, já que um dos fatores importantes da crise foi a expectativa de um governo com políticas opostas.

Com o ajuste, os agentes econômicos passaram do estado de choque e paralisia para a confiança e a ação. Os títulos brasileiros no exterior, que tinham atingido até 20% do valor de face, reagiram rapidamente. Os investimentos retornaram e o país voltou a crescer em julho de 2003, iniciando 61 meses seguidos de expansão. Foi, portanto, uma contração intensa, mas de curta duração e retomada rápida.

Outro aspecto fundamental foi o fato de a recuperação ter sido liderada pelas exportações, principalmente de manufaturados, em função dos excedentes exportáveis gerados pelo consumo doméstico menor e da capacidade competitiva da indústria manufatureira.

A maior parte dos ganhos com a valorização das commodities brasileiras não esteve presente nos primeiros anos da recuperação. A parte mais relevante dele só veio a partir de 2009, principalmente contra o que é senso comum, como resultado das medidas tomadas pela China para combater os efeitos da crise.

Conclusão: o ajuste e o crescimento da economia naquele período foram fundamentados por forte rigor fiscal e monetário, grande choque de confiança e ainda pela disponibilidade de mão de obra, dada a alta taxa de desemprego da época.

Artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo em 11 de agosto de 2013.

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