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Henrique Meirelles: ‘A defesa do fundamento’

Em artigo na Folha de S. Paulo, ele diz que é preciso olhar com muita atenção a evolução dos fundamentos da economia brasileira, para termos condições de enfrentar qualquer turbulência à frente.

09 de set de 2013

Henrique Meirellescoordenador do Conselho de Política Econômica do Espaço Democrático e ex-presidente do Banco Central. 

A situação do Brasil e a dos Estados Unidos eram muito diferentes no momento da eclosão da crise econômica que, neste mês, completa cinco anos.

Os Estados Unidos vinham de longo período de juros baixos -porém com inflação sob controle-, possibilitados pela importação massiva de produtos chineses a preços cadentes. Isso permitiu o surgimento de desequilíbrios internos e bolhas de ativos.

Dentro desse ambiente, cresceu a bolha imobiliária induzida por políticas públicas e problemas regulatórios, como foram descritos na última coluna. Em 2008, a explosão dessa bolha causou uma crise brutal de crédito que afetou a economia do mundo inteiro.

O Brasil entrou nessa crise com bons fundamentos econômicos. A política monetária estava equilibrada e o país crescia a taxas elevadas, com um mercado consumidor doméstico forte e em expansão. A situação externa também era saudável. O crescimento robusto atraía investimentos estrangeiros em volumes maiores que o nosso déficit externo.

Finalmente, a regulamentação e a fiscalização rigorosa do Banco Central do Brasil nos anos precedentes fizeram com que o sistema financeiro estivesse em 2008 com uma carteira de crédito saudável, capaz de reagir prontamente às medidas contra a crise. Contudo, como 20% do total de crédito do país eram financiados por linhas internacionais, ela acabou tendo impacto violento por aqui.

O colapso dessas linhas externas levou a uma crise de crédito em dólares, que, ao final, gerou forte crise de crédito em reais, uma situação muito próxima àquela enfrentada pelos Estados Unidos. Medidas de liquidez em dólares, reais e derivativos restabeleceram o crédito, dando condições à economia de reagir aos estímulos fiscais.

A solução é muito bem sintetizada numa analogia que compara uma crise de crédito a enfermidades: se forem logo detectadas pelo médico, e o paciente for saudável e rapidamente atendido com equipamentos e medicamentos adequados, a saúde é restabelecida em pouco tempo e com pouco efeito colateral.

Existem, portanto, duas grandes lições. Por um lado, é importante o tratamento certo na hora certa, mas, por outro, é importante também que o paciente esteja saudável no momento da crise.

É preciso olhar com muita atenção a evolução dos fundamentos e do equilíbrio da economia brasileira, para termos condições de enfrentar qualquer turbulência à frente. Uma delas, certamente, será a inversão da política monetária norte-americana, cujos efeitos o mercado já antecipa. 

Artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo em 8 de Setembro de 2013. 

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