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Henrique Meirelles: ‘Cada papel na sua hora’

Para ex-presidente do BC, não cabe ao empresário tomar decisões políticas ao decidir investimentos --de longo prazo, no aumento da produção, ou de curto prazo, na Bolsa de Valores ou nos mercados futuros.

06 de out de 2014

Henrique Meirellescoordenador do Conselho de Política Econômica do Espaço Democrático e ex-presidente do Banco Central

A natural politização das discussões no processo eleitoral abrange a atuação política de diversos segmentos da sociedade, mas há certa dificuldade em entender seu papel socioeconômico.

É comum e saudável que cidadãos, independentemente do setor, se engajem no processo político. Isso, porém, não pode ser confundido com seu papel como profissional e agente econômico.

O médico pode ter sua opinião política, mas, no exercício da profissão, deve ter foco exclusivo na prática da medicina e na saúde do paciente. O mesmo deve valer para todas as profissões.

O jornalista também pode ter suas posições políticas, mas isso não elimina sua função profissional básica de bem informar, o que costuma gerar problemas de relacionamento com políticos de todos os matizes.

Outra área de atuação objeto frequente desse mal entendido é o setor empresarial. É normal que políticos queiram ver motivações políticas em decisões empresariais. Aqui também é importante ficar claro que a função do empresário é produzir mais, ao menor custo e com a melhor qualidade possível –sejam produtos industriais, agrícolas, financeiros ou serviços em geral. E quanto mais competitivo o mercado, menor o preço.

O foco principal do empresário deve ser a lucratividade de seu negócio dentro das leis vigentes. A empresa que tem prejuízo não sobrevive, não cresce e não cumpre seu papel na sociedade. A empresa lucrativa investe, gera emprego, eleva a produção nacional, cria riqueza, paga impostos e permite ao governo aumentar investimentos e programas sociais.

É essencial compreender essa dinâmica para evitar a visão errada sobre o papel de cada setor, inclusive o empresarial. Não cabe ao empresário tomar decisões políticas ao decidir investimentos –de longo prazo, no aumento da produção, ou de curto prazo, na Bolsa de Valores ou nos mercados futuros.

O empresário está preocupado não só com o retorno dos investimentos, mas com a previsibilidade econômica. O que gera muito mal entendido é que as políticas econômicas adotadas no país influenciam essa previsibilidade, as vendas e os resultados futuros. Por isso, na visão de cada empresário, é legítimo que ele avalie o retorno previsto de seus negócios e investimentos dentro do cenário eleitoral.

Sua ação empresarial, no entanto, deve se dar essencialmente no bom exercício de sua função profissional –como fazem os bons profissionais de todas as áreas.

Há grande preocupação dos candidatos com a melhora do diálogo com os empresários e os mercados.

Entender melhor o papel de cada um tornará esse diálogo mais produtivo ao país.

Artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo em 5 de outubro de 2014.

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