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Henrique Meirelles: ‘Crise criada’

Em artigo, ex-presidente do BC fala sobre os erros cometidos pós-crise e defende ajuste da economia para aumentar o investimento e a produtividade, e assim levar o país de volta ao crescimento.

07 de dez de 2014

Henrique Meirellescoordenador do Conselho de Política Econômica do Espaço Democrático e ex-presidente do Banco Central

Muitos se surpreenderam com a desaceleração da economia mundial depois da saída gradual da crise. Por isso é importante analisar a real dinâmica de sua evolução e dos ajustes na economia global.

A crise teve até aqui três fases. A primeira foi o colapso do crédito nos EUA, particularmente no mercado imobiliário, com reflexos graves na atividade produtiva e no emprego. Os EUA reagiram rapidamente, com medidas drásticas no setor financeiro e políticas fortes de estímulos fiscais e monetários. Os estímulos fiscais foram interrompidos faz algum tempo, e os monetários, adotados posteriormente, começam a ser gradualmente retirados.

A segunda fase da crise foi a europeia. A Europa demorou um pouco mais para reconhecer e enfrentar o problema, que atingiu principalmente os mercados de dívida pública e privada nos países do sul do continente. A saída europeia está sendo mais lenta, com características diversas em cada país refletindo a diversidade da região.

Estamos agora na terceira fase da crise – a desaceleração dos emergentes. Esses países entraram na crise em melhores condições, mas, como não fizeram os ajustes necessários nas primeiras duas fases, os estão fazendo agora, particularmente a China.

É notável que grande parte dos desequilíbrios dos emergentes foi construída já no pós-crise dos países ricos. A China, por exemplo, sofreu muito com a crise nos EUA e na Europa via queda das exportações e, em resposta, promoveu política contracíclica que gerou expansão insustentável do crédito, agora enfrentada. A Rússia enfrenta problemas graves por causa da dependência do petróleo e das sanções econômicas do Ocidente.

O Brasil, quando foi atingido pela crise externa, apresentava excelentes condições, com economia forte, equilibrada e em expansão. Diante do impacto brutal do colapso do crédito internacional, foram tomadas medidas rápidas, fortes e precisas que, graças ao estado robusto da economia, nos tiraram da crise já no final de 2009 e em 2010.

Mas desequilíbrios foram desenvolvidos posteriormente e, agora, estamos no ciclo dos demais emergentes de correção dos problemas no pós-crise. Portanto, o baixo crescimento recente passa pelas questões fiscais já diagnosticadas pela nova equipe econômica, pela inflação e pela queda da confiança que contraiu os investimentos.

O momento é de ajuste. Se as mudanças necessárias na política econômica forem executadas plenamente e implementadas juntamente com reformas para aumentar o investimento e a produtividade, elas podem reequilibrar a economia e levar o país de volta ao crescimento e ao desenvolvimento socioeconômico, com benefícios diretos a todos.

Artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo em 07 de dezembro de 2014.

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