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Henrique Meirelles: ‘Crises e viradas’

Para o ex-presidente do BC, o Brasil não pode vacilar na reação a essa crise no futebol, porque senão ela trará ainda mais problemas. "Como, costuma acontecer também nas crises econômicas", diz, em artigo.

14 de jul de 2014

Henrique Meirellescoordenador do Conselho de Política Econômica do Espaço Democrático e ex-presidente do Banco Central. 

O colapso do sistema financeiro nos países centrais gerou medidas para a prevenção de crises futuras, com lições importantes que podem ser aplicadas em várias áreas. Inclusive nesta sofrida crise pós-goleada para a bem preparada seleção alemã. Um resultado que escancarou a crise do futebol brasileiro, reforçado pela derrota contra a Holanda.

A primeira lição da crise é a necessidade de dimensioná-la corretamente. Tentativas diversas por motivos distintos de subdimensioná-la, classificá-la como acidente ou determinar motivações ou razões específicas e menores são a pior abordagem possível. No caso da seleção brasileira, atribuir o fiasco a um apagão momentâneo ou a um acidente de percurso e dizer que vamos dar a volta por cima não são abordagens aceitáveis ou eficazes.

O fato é que tivemos uma seleção despreparada, sem esquema tático definido, sem fluidez de jogo, com jogadores desentrosados e descontrolados emocionalmente. Um time que, desde os primeiros jogos, dava sinais de desastre eminente, mas que não foram devidamente valorizados.

Entre os episódios subestimados podemos listar os choros compulsivos, as dificuldades de finalização, o trauma na cobrança dos pênaltis, os sinais evidentes de desentrosamento tático, físico e emocional. Tivemos ainda a propagação da ideia de que a tática do jogo feio seria a mais eficiente para chegar ao título, o que evidentemente caiu por terra frente à dura realidade dos 7 a 1.

Não há vantagem em ser goleado dessa maneira, mas agora é possível diagnosticar de forma séria o tamanho do desastre e identificar as suas causas. O que leva uma seleção pentacampeã mundial a, jogando em casa e com enorme apoio da torcida, chegar a uma semifinal de Copa do Mundo com time tão desesperado e atabalhoado?

O que aconteceu no Mineirão deixou ainda mais claro que há algo profundamente errado na estrutura futebolística brasileira. Para superarmos essa fase, é preciso analisá-la de forma sistemática e criar propostas objetivas para superá-la.

Sob o impacto dos sete gols e da forma fácil como fomos abatidos em campo, são naturais as fortes reações emocionais, as frases de efeito, as análises simplistas. Tudo isso era esperado em momento como este. Agora nós temos que nos dedicar de forma séria e sistemática à análise das causas do desastre e à busca de soluções efetivas.

Não podemos vacilar na reação a essa crise no futebol, porque senão ela trará ainda mais problemas e ainda mais decepções. Como, aliás, costuma acontecer também nas crises econômicas.

Artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo em 13 de julho de 2014.

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