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Henrique Meirelles: ‘De olho na bolha’

Fed busca incentivar a economia norte-americana sem deixar os juros dos títulos mais longos excessivamente baixos, nem deixar que eles subam demais antes que a economia esteja recuperada, diz, em artigo, o ex-presidente do BC.

04 de ago de 2013

Henrique Meirelles, coordenador do Conselho de Política Econômica do Espaço Democrático e ex-presidente do Banco Central

O Fed (banco central dos EUA) tem dado indicações que confundem alguns operadores de mercado. Em alguns momentos, indica que diminuirá os estímulos monetários adotados contra a crise. Em outros, sinaliza que isso pode ser feito mais adiante.

A razão disso, além da própria evolução do cenário, é a preocupação da autoridade monetária americana em estimular a economia e, ao mesmo tempo, evitar a formação de bolhas.

É importante entender o que se chama de bolha. Ela existe quando os preços de alguns ativos sobem exageradamente, geralmente num processo de alta liquidez e juros baixos.

O estouro de bolhas pode causar prejuízos graves, como a crise de 2008, detonada pelo estouro da bolha imobiliária dos EUA. O fenômeno americano é o mais bem documentado e fácil de analisar.

Durante anos, o controle da inflação americana foi facilitado pela capacidade chinesa de exportar produtos a preços cada vez mais baixos. Isso, junto a outros fatores como a evolução do instrumental de política monetária, permitiu ao Fed adotar política de juros baixos e incentivo ao consumo e ao crédito, com inflação na meta.

Esse contexto causou alta exagerada no preço das ações no final dos anos 1990, principalmente de empresas de internet. Como tudo que sobe demais nos mercados um dia cai, a bolha da internet estourou em 2000. E foi seguida pelos ataques terroristas de 2001.

Esses dois acontecimentos ameaçaram levar os EUA à recessão devido à perda patrimonial dos que tiveram prejuízos na Bolsa. E motivaram o Fed a afrouxar a política monetária.

A operação teve sucesso, mas o excesso de liquidez fez outros ativos subirem exageradamente, principalmente no mercado imobiliário. O preço dos imóveis foi inflacionado. Pior: grande parte das compras era financiada por crédito imobiliário.

Assim, quando a bolha dos imóveis estourou, houve paralisação dos mercados de créditos e prejuízo aos investidores em geral. Aí, sim, tivemos uma crise global, produto das consequências do estouro da bolha imobiliária.

O que o Fed busca agora é incentivar a economia, sem deixar os juros dos títulos mais longos excessivamente baixos a ponto de criar outras bolhas, nem deixar que eles subam demais antes que a economia esteja recuperada.

Alan Greenspan, ex-presidente do Fed, dizia que é muito fácil detectar quando a inflação passou da meta, mas definir quando os preços de imóveis ou ações subiram exageradamente é muito mais difícil.

A preocupação com as bolhas, das quais a mais perigosa é a imobiliária, precisa estar sempre no radar de todos os países o tempo todo.

Artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo em 4 de agosto de 2013.

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