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Henrique Meirelles: “Evolução e harmonia”

O ex-presidente do Banco Central escreve sobre a sofisticada indústria do entretenimento e o Carnaval brasileiro, símbolo da inventividade dos brasileiros, inclusive de gestão.

09 de fev de 2016

Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central e colaborador do Espaço Democrático

São Paulo este ano teve mais de 380 blocos de rua inscritos para o Carnaval. Nos últimos três anos, houve crescimento de mais de 400% nas inscrições na cidade. É um fenômeno percebido em várias partes do Brasil. Ele mostra a natureza mutante e evolutiva dessa grande festa brasileira, que reflete as mudanças sociais e econômicas do país.

O Carnaval começou a ser celebrado no país ainda no período colonial. Escravos brincavam nas ruas e, mais tarde, os senhores começaram a festejar nos salões. Em meados do século 20, a festa já era essencialmente um evento social. As escolas de samba reuniam comunidades da região onde estavam inseridas (Mangueira no morro da Mangueira, Beija-Flor em Nilópolis etc.), a classe média se encontrava nos clubes para os bailes, os ricos e/ ou famosos frequentavam os grandes bailes cariocas como o do Copa e o do Monte Líbano, com grande cobertura da imprensa.

Com a evolução do país, os foliões e as escolas foram tomando as ruas de formas ainda mais expansivas e elaboradas. Os foliões saíam com fantasias ingênuas e lança-perfume, que esguichavam no pescoço das pessoas por quem se interessavam. Mas o lança-perfume passou a ser usado como uma droga de alta toxicidade, cheirada em lenços e algodão, o que começou a dar outro clima nos bailes e nas ruas até sua proibição.

A evolução do Carnaval foi muito grande não só pela multiplicação dos participantes, mas também pela integração social, misturando pessoas de diferentes origens e regiões numa gigantesca explosão lúdica de engajamento comunitário que estimula comportamentos diversos e serve de válvula de escape às agruras cotidianas.

De origem europeia e presente em diversas regiões do mundo, no Brasil a festa adquiriu dimensão maior e culturalmente mais rica, envolvendo música, dança e interações sociais inovadoras e criativas.

A indústria do entretenimento é uma indústria sofisticada, e nosso Carnaval espetacular é sinal do imenso potencial e inventividade dos brasileiros, inclusive de gestão.

Estudos acadêmicos mostram que as escolas de samba e sua evolução na avenida refletem eficiente modelo de organização. Apesar do enorme número de pessoas e elementos envolvidos e da explosão de emoções e informalidade, tudo funciona de maneira sincronizada e eficiente. Para além de toda a sua alegria, os desfiles oferecem modelo bem-sucedido de cultura organizacional: aderência à cultura local, ritmo e direção sincronizados, papéis definidos, mas com grande margem de manobra individual, alto grau de motivação e planejamento.

Parece brincadeira, mas o Carnaval é grande prova da capacidade brasileira de organizar, evoluir e inovar. E isso não precisa acabar na quarta-feira.

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