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Henrique Meirelles: ‘Exportar para crescer’

Em artigo, ex-presidente do BC diz que, para o País voltar a crescer, precisa de previsibilidade, infraestrutura e produtividade.

31 de ago de 2014

Henrique Meirellescoordenador do Conselho de Política Econômica do Espaço Democrático e ex-presidente do Banco Central

O resultado negativo do PIB brasileiro acentua as preocupações com o crescimento neste ano e no próximo. Um vetor pouco mencionado e compreendido desse resultado é o do setor exportador. Apesar de crescimento pontual no trimestre, as exportações estão praticamente estagnadas desde 2012. Análise criteriosa de seu comportamento neste século ajuda a encontrar caminhos para a retomada tanto das exportações quanto do PIB.

Muitos creem que a arrancada das exportações brasileiras a partir de 2003 foi fruto da alta do preço das commodities. Isso foi verdade depois de 2008, mas, de 2003 a 2007, o fundamental foi a estabilização da economia no período.

Para entender a evolução dos preços dos produtos básicos brasileiros é preciso olhar os chamados termos de troca, que comparam a média ponderada do valor dos produtos exportados pelo Brasil versus a média dos produtos que nós importamos.

Esses termos não explodiram na década passada, como alguns pensam. Eles ficaram abaixo da média histórica em praticamente todo o período de 2000 até 2007. Depois de aumento moderado em 2008/09, subiram em 2010 de forma impressionante, ficando até 30% acima da média, devido à alta das importações da China resultantes dos pesados investimentos em infraestrutura e aumento do consumo doméstico. Esses preços caíram a partir de 2012, mas permanecem quase 20% acima da média.

A conclusão inevitável é de que a evolução das exportações brasileiras de 2003 a 2008 não resultou da evolução do preço internacional das commodities, mas de dois fatores principais: o crescimento das exportações de manufaturados e o crescimento da produção de commodities.

O grande fator que elevou a competitividade das exportações, particularmente manufaturados, foi a estabilização da economia a partir de 2003. Ela permitiu aumento do investimento, do crédito e do número de pessoas empregadas, que não só expandiram o mercado interno e criaram maior escala, mas, mais importante, aumentaram a plataforma produtora de exportação. Assim, as empresas brasileiras passaram a ter mais poder de produção, negociação e venda nos mercados internacionais.

Mesmo no agronegócio, a expansão na maior parte do período 2003-08 foi baseada em aumento de volumes, produtividade e área plantada. O que, de novo, é fruto da estabilidade, da confiança e do aumento dos investimentos.

Portanto, qualquer recuperação dos investimentos, do crescimento e também das exportações passa pelo aumento da confiança, da previsibilidade, da infraestrutura, da produtividade e da normalização do mercado cambial.

Artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo em 31 de agosto de 2014.

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