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Henrique Meirelles: ‘Grécia cai na real’

Gastar dinheiro e aumentar a dívida é fácil. Talvez agora o governo grego tenha de explicar à população que precisará fazer coisas diferentes do que foi anunciado em campanha.

25 de maio de 2015

Henrique Meirelles, coordenador do Conselho de Política Econômica do Espaço Democrático e ex-presidente do Banco Central

Atenas espera fechar acordo para ter ajuda da União Europeia em troca de reformas que antes rechaçava.

Uma das maiores dificuldades da Grécia em obter mais concessões dos países com quem compartilha o euro é o fato de muitos deles terem passado por dificuldades semelhantes, terem sido socorridos e terem cumprido as condições para receber este socorro, como cortar despesas e benefícios e promover reformas para elevar a competitividade e pavimentar a recuperação.

Países como Espanha, Irlanda e Portugal passaram por duro ajuste, mas não só reduziram a dívida e os gastos públicos, como deram condições de solvência a seus governos, viabilizando seu futuro. Hoje chegam a pagar taxas entre as mais baixas de sua história para captar recursos.

A Espanha, com histórico de deficit nas transações com o exterior, passou a ter saldos positivos por causa do avanço da competitividade de seus produtos. As dores do ajuste espanhol são inquestionáveis – o desemprego passa de 25% –, mas toda essa dor está gerando uma Espanha mais competitiva, capaz de produzir crescimento e, no futuro, empregar e melhorar a vida da população. A alternativa seria enfrentar a dor da insolvência sem a recompensa futura.

Já a Grécia optou por eleger governo populista que propôs a negação completa do ajuste ao mesmo tempo em que solicitou mais ajuda dos países europeus para sustentar programas sociais que não consegue pagar com seus recursos.

Mas os outros europeus se recusam a bancar a prodigalidade do povo grego. Como ouvi recentemente de um indignado taxista na Alemanha, país que fez duro ajuste pós-reunificação: “Se eu aceitei que minha aposentadoria fosse adiada, por que tenho de pagar para um grego se aposentar vários anos antes de mim?”.

Diante do impasse, a Grécia ameaçou sair do euro, com os custos que isso acarretaria à Europa. Mesmo assim, seus colegas de moeda não mostram sinais de ceder, e Atenas começou a negociar, forçada pelos custos brutais que a falência teria ao povo grego. O ministro da economia grego é especialista em teoria dos jogos, mas o blefe nem sempre resolve.

Os gregos, portanto, estão enfrentando a realidade. Gastar dinheiro e aumentar a dívida é fácil. O problema é pagar. Como dizia Garrincha, é preciso combinar a jogada com os russos. No caso, alemães, franceses, espanhóis, portugueses, irlandeses…

Caso obtenha um acordo, o governo grego terá de explicar à população que precisarão fazer muitas coisas diferentes do que foi anunciado na campanha. De qualquer maneira, a lição é clara e serve para todos: é preciso combinar com os credores se queremos gastar mais do que produzimos.

Artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo em 24 de maio de 2015.

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