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Henrique Meirelles: ‘Lição de português’

Em artigo, ex-presidente do Banco Central fala sobre os ajustes promovidos pelos países europeus e os aprendizados com as crises econômicas.

27 de abr de 2014

Portugal voltou aos mercados de crédito em grande estilo com a emissão de títulos a taxas baixas, similares às do período pré-crise. É um marco do sucesso dos programas de austeridade implantados em países europeus, em contraste importante com os países que fazem ajustes insuficientes.

Essas diferenças são muito claras na história recente do continente europeu.

Comecemos pela Alemanha. A economia do país sofreu processo de desajuste com aumento de gastos públicos e de custos acima da produtividade, na ilusão de que isso melhoraria o padrão de vida de forma duradoura.

Mas o resultado foi a perda gradual da competitividade, potencializada pela absorção da Alemanha Oriental, em 1990. Num gesto político histórico, o chanceler Helmut Kohl determinou que a moeda oriental fosse convertida ao marco ocidental na proporção de 1 para 1, quando no mercado chegava a 4 para 1. Isso elevou muito os custos na parte oriental, o que destruiu a competitividade, causando fechamento de fábricas e desemprego.

Na década de 1990, a Alemanha iniciou um ajuste duro, contendo gastos públicos, margens de lucro e limitando aumentos salariais. No período entre 1990 a 2010, o salário médio cresceu 7,5%, contra mais de 50% em países como Espanha e Reino Unido.

A redução de custos e a maior eficiência na produtividade das empresas elevaram a competitividade alemã, turbinando as exportações.

Quando a crise estourou, em 2008, a Alemanha estava forte e foi capaz de seguir aumentando seu emprego e renda. Ao contrário dos seus vizinhos europeus, principalmente os países do sul, como Grécia, Irlanda, Espanha e Portugal, que, aí sim, tiveram de fazer ajustes duros, com desemprego elevado – mostrando mais uma vez que não existe ganho sem custo.

Quando a Espanha aderiu ao euro, teve como ganho imediato a queda dramática da inflação e, em consequência, da taxa de juros. Movido pelo crédito fácil, o país cresceu rapidamente com mais endividamento público e privado. Teve, inevitavelmente, de pagar o preço por adotar uma moeda comum forte, mas fora de seu controle.

Nas crises, em regimes de câmbio livre, é a desvalorização cambial que corrige desajustes internos. Mas, como estava na zona do euro, isso não foi possível na Espanha e também na Irlanda, Portugal e outros países. Assim, essas nações tiveram de fazer o ajuste via redução de salários, custos e gastos do governo. Pagaram o custo, alto, e deu certo. Hoje, voltam a crescer e a obter crédito a taxas normais.

É uma lição importante para Brasil: os juros podem cair, mas como resultado de inflação na meta, ajuste fiscal rigoroso, solidez e clareza da política econômica.

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