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Henrique Meirelles: ‘Musculatura x anabolizante’

Ex-presidente do BC recomenda, em artigo, políticas de desenvolvimento de longo prazo, e não apenas visando 2015. "É preciso seguir o caminho dos países que deram salto no padrão de vida".

12 de out de 2014

Henrique Meirellescoordenador do Conselho de Política Econômica do Espaço Democrático e ex-presidente do Banco Central

O Banco Mundial e o FMI revisaram para baixo as previsões de crescimento da economia mundial e da maioria dos países neste ano. Alguns estão crescendo bem, como EUA e Reino Unido, mas seguem em recuperação. Já zona do euro, alguns asiáticos e os latino-americanos tiveram suas estimativas reduzidas. O Brasil está entre os que sofreram maior revisão de crescimento pelo FMI, de 1,3% para 0,3%. E há ainda os países que enfrentam recessão, como a Argentina.

Os latino-americanos são os casos mais preocupantes, pois já gastaram a munição fiscal (e monetária, em alguns casos) para retomar o crescimento. Com a trajetória de aumento da dívida pública, eles não têm mais espaço para usar recursos públicos para impulsionar o crescimento.

É preciso buscar caminhos para reverter esse processo. No Brasil, eles passam pelo aumento da confiança para a retomada dos investimentos em produtividade no setor industrial e de serviços para atender ao grande mercado de consumo interno. Passam pela educação, fator crítico no aumento da produtividade. E passam também pelos investimentos em infraestrutura, para atender à demanda criada pela expansão econômica dos últimos anos –um problema (infraestrutura congestionada) que é parte importante da solução (a demanda que viabiliza os investimentos).

Na Argentina, a contração é profunda e complexa, situada num longo processo de redução relativa da renda e do padrão de vida nas últimas décadas. O país agora tenta reverter sua última crise reeditando decreto do ex-presidente Perón, de 1974, que dá poder ao governo de intervir nas empresas, na sua produção, no seu sistema de fixação de preços etc. Como a história mostra, essa reedição de expedientes do passado, dando poder a burocratas para tomar decisões arbitrárias no funcionamento das empresas, tende a desorganizar ainda mais a economia e criar novas distorções.

Já países que adotaram políticas de desenvolvimento de longo prazo baseadas em educação, produtividade e competitividade do setor privado, como Coreia do Sul, Cingapura e, anteriormente, o Japão, adquiriram em poucas décadas padrões de crescimento, renda e poder econômico similares aos dos países desenvolvidos.

Nesse quadro de queda do crescimento no Brasil, é importante que não nos fixemos só no curto prazo, visando 2015. É preciso olhar as curvas de longo prazo, verificando o que é necessário fazer para reverter tendências e seguir o caminho dos países que de fato deram salto no padrão de vida. Eles trabalharam duro nas melhorias de longo prazo e tiveram resultados mais rápido que os dos apressados.

O longo prazo demora, mas um dia chega.

Artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo em 12 de outubro de 2014.


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