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Henrique Meirelles: ‘No concerto das nações’

Em artigo, ex-presidente do BC defende ajuste econômico em termos de aumento da produtividade e dos investimentos para o Brasil se adaptar com sucesso ao novo ciclo econômico mundial.

27 de jan de 2014

Henrique Meirelles, coordenador do Conselho de Política Econômica do Espaço Democrático e ex-presidente do Banco Central. 

A economia mundial entra em nova fase, marcada pela gradual recuperação dos países desenvolvidos, liderados pelos Estados Unidos, e a desaceleração dos países emergentes, liderados pela China.

É uma inversão de ciclo, na medida em que a recuperação logo após a crise foi liderada pela China e demais emergentes. E a ideia de que os emergentes eram a força definitiva conduzindo a economia mundial mostrou-se prematura, embora nada impeça que a China retome maior força no futuro.

Ao se analisar a dinâmica macroeconômica de cada país, é importante distinguir fatores globais e domésticos, que podem estar em ciclos diferentes ou semelhantes, acentuando ou mitigando a sincronização.

O Brasil precisa estar atento a esses movimentos. No ciclo de contração europeia, por exemplo, a Alemanha tem um melhor desempenho por já ter feito o dever de casa.

Antes da eclosão da crise em 2008, os EUA atravessaram período de crescimento elevado e inflação e juros baixos, a chamada “grande moderação”. Ela foi caracterizada por forte estabilidade da economia americana, que gerou expansão acentuada do crédito e do consumo, com aumentos graduais dos deficits fiscal e comercial.

A maior contrapartida desse processo se deu na economia chinesa, que entrou em trajetória de grande crescimento impulsionado pelas exportações aos EUA, com baixo consumo interno, altas taxas de poupança e investimento, mão de obra abundante e barata. A China assim acumulou enorme poupança, transformada em reservas internacionais que financiaram parte do deficit americano.

Era um equilíbrio insustentável, rompido quando a expansão do crédito atingiu seus limites nos EUA, com alta inadimplência, crise creditícia e paralisação da economia. Isso levou a um ajuste americano, que reduziu o consumo e o endividamento e aumentou a poupança no país.

Já a China fez movimento complementar, em reação contracíclica, com expansão do crédito e da infraestrutura, que durou até o esgotamento do processo, ao se atingir os limites da expansão acelerada do crédito no país. Pequim então mudou seu modelo e passou a privilegiar o aumento do consumo interno, com redução da poupança e do investimento. A China agora cresce a taxas menores, em ciclo compatível com a nova realidade, refletida em suas importações.

O grande ponto positivo é a volta do crescimento dos EUA, do Japão e, mais lentamente, da Europa, o que permite outro processo de ajustes dos mercados emergentes.

No caso do Brasil, é fundamental que o ajuste se dê em termos de aumento da produtividade e dos investimentos para nos adaptarmos com sucesso ao novo ciclo econômico mundial.

Artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo em 26 de janeiro de 2014.

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