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Henrique Meirelles: ‘O Brasil na nova ordem’

"Está se criando um novo equilíbrio na economia mundial, que ficará mais claro quando os EUA encerrarem sua política agressiva de estímulos monetários", diz, em artigo, o ex-presidente do Banco Central.

18 de ago de 2013

Henrique Meirelles, coordenador do Conselho de Política Econômica do Espaço Democrático e ex-presidente do Banco Central

Temos de separar eventos de longo e de curto prazo para entender a conjuntura e estabelecer prioridades.

Os eventos de longo prazo que vivemos hoje apontam para o fim de uma era ou modelo em que alguns dos grandes países emergentes, especialmente a China, mantiveram altas taxas de poupança e investimento, produzindo manufaturados a preços baixos para serem exportados a países desenvolvidos, sobretudo aos EUA.

Isso gerou crescentes déficits nas contas externas dos países importadores, que, no final das contas, foram financiados majoritariamente pela poupança chinesa e de outros países poupadores.

Foi um casamento aparentemente perfeito entre os consumidores dos países desenvolvidos e os poupadores dos países emergentes que lhes vendiam produtos e os financiavam com o lucro dessas vendas. Mas o modelo era insustentável e acabou de forma abrupta, com a exaustão da capacidade da sociedade americana de seguir aumentando seu nível de endividamento.

A impossibilidade de exportar como antes forçou a China a buscar alternativas. O governo chinês conduziu processo vigoroso de investimentos, que substituiu as exportações como motor do crescimento, mas que perdeu força ao atingir os limites do endividamento público. A China então entrou em nova fase, com o consumo interno assumindo papel central na economia. Mas maior consumo resulta em menores taxas de investimento e crescimento.

A economia dos EUA também passa por ajuste, tornando-se menos dependente da poupança de outros países, melhorando sua situação fiscal e aumentando sua produtividade e capacidade industrial.

Já na esfera europeia, vemos rearranjos semelhantes. Os poupadores do norte da Europa e os consumidores do sul do continente estão revendo seus modelos e as relações entre si, com consequências importantes para a economia regional e global.

Portanto, está se criando um novo equilíbrio na economia mundial, que ficará mais claro quando os EUA encerrarem sua política agressiva de estímulos monetários.

Esse movimento, que é antecipado pelos mercados, enxugará o excesso de liquidez e significará o fim da abundância de recursos para financiar déficits nas contas externas de outros países.

Nesse novo contexto, os agentes econômicos prestarão muito mais atenção aos fundamentos da economia. No caso do Brasil, o câmbio, pressionado de um lado, ajuda os movimentos já em curso para elevar a produtividade. Por outro lado, cria pressões inflacionárias a serem combatidas.

São passos necessários para navegarmos bem na nova ordem econômica mundial que se forma no horizonte.

Artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo em 18 de agosto de 2013.

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