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Henrique Meirelles: “Quem ganha com a inflação?”

"Na medida em que os preços começam a ser atrelados à inflação, temos uma corrida inflacionária desenfreada que desorganiza toda a economia", diz, em artigo, o ex-presidente do Banco Central.

19 de maio de 2013

Henrique Meirellescoordenador do Conselho de Política Econômica do Espaço Democrático e ex-presidente do Banco Central.

No longo prazo, todos perdem com a inflação. Somos catedráticos no assunto. Vivenciamos uma das mais longas hiperinflações da história recente e fenômenos inflacionários de toda espécie. Não deveria restar dúvida sobre as perdas e o custo da inflação para as famílias, as empresas e o país.

Mas há ainda uma questão pouco debatida: quem ganha com a inflação? No curto prazo, aqueles capazes de elevar preços, como empresas com poder de repassá-la aos consumidores sem grande queda da demanda no curto prazo, profissionais liberais bem-sucedidos e organizações públicas com receitas atreladas à inflação.

Os governos federal, estaduais e municipais são bons exemplos: grande parte de suas receitas é vinculada a preços, salários e lucros correntes, o que faz com que aumentos de preços elevem sua arrecadação.

Essas organizações, públicas ou privadas, ganham com a alta de preços porque, ao contrário das suas receitas, a maior parte das despesas não acompanha imediatamente a inflação: salários geralmente são reajustados uma vez ao ano, assim como custos com contratos de fornecedores, aluguéis etc.

Além disso, poder público e empresas são tomadores líquidos de recursos. Como grande parte do endividamento é a juros prefixados, a inflação maior reduz a taxa real de juros a pagar.

Portanto, organizações e pessoas ganham no curto prazo com a inflação. Já os perdedores, no longo prazo, começam a exigir reajustes frequentes, como mostrou recente pedido de central sindical de reajustes automáticos de salários indexados à inflação.

Na medida em que os preços começam a ser atrelados à inflação, temos uma corrida inflacionária desenfreada que elimina os ganhos dos que saíram na frente e desorganiza toda a economia.

O primeiro efeito é a queda no poder de compra dos consumidores. E, com inflação alta, as empresas deixam de ter clareza de custos num mundo pautado por competitividade e produtividade, ou seja, a capacidade de produzir mais e melhor por menos.

Países e empresas com variações de preços disseminadas são incapazes de investir eficientemente em produção e produtividade. O bom funcionamento do sistema de preços é fundamental para a alocação de recursos e investimentos.

E quando se torna imperativo reduzir a inflação com alta de juros, a atividade econômica recua, derrubando vendas e arrecadação, o que gera perdas também aos que ganharam com a inflação no primeiro momento.

Em resumo, a inflação oferece ganhos de curto prazo para alguns, custos para muitos e prejuízos no médio e longo prazo para todos, como nossa história mostra com clareza.

Artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo em 19 de maio de 2013.

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