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Henrique Meirelles: Razão e paixão

"Aprendi, na vida profissional, que a força dos argumentos está nos seus resultados", diz, em artigo, o ex-presidente do Banco Central.

04 de mar de 2013

Henrique Meirelles, coordenador do Conselho de Política Econômica do Espaço Democrático e ex-presidente do Banco Central do Brasil.

As votações expressivas do desgastado Silvio Berlusconi e do comediante Beppe Grillo, somadas aos resultados frustrantes de Pier Luigi Bersani e do premiê Mario Monti, proporcionam uma fascinante visão da psique italiana.

Para quem gosta muito da Itália e dos italianos, preocupa ver como decisões econômicas tão relevantes foram tomadas com debate intelectual de baixa profundidade e alta densidade emocional.

É o que tem ocorrido em países do sul da Europa e da América Latina, num grande contraste em relação ao debate econômico na maior parte do norte europeu, particularmente nos países nórdicos. Lá, ele tende a ser racional, frio e intelectualmente denso, com diversas correntes buscando conquistar, pela razão, formadores de opinião, tomadores de decisão e eleitores.

Talvez não seja coincidência que a situação econômica do norte europeu seja muito melhor que a do sul, o que traz um alerta importante para a qualidade do debate econômico no Brasil.

Devemos estar atentos ao debate, marcado por alta dose de paixão – com declarações extremadas, desqualificação de oponentes ou de quem pensa diferente – e pela busca de influência ou predominância baseada mais na força das palavras do que dos argumentos, sem muito cuidado com a essência e a busca de evidências factuais. O resultado disso é, muitas vezes, desastroso.

Aprendi, na vida profissional, que a força dos argumentos está nos seus resultados. Temos que analisar o histórico da aplicação de teorias ou diagnósticos econômicos para concluir sobre sua aplicabilidade a cada situação.

Apesar do seu componente artístico, a ciência econômica tem semelhanças com diversas áreas da pesquisa, como a medicina, por exemplo. Quando se pesquisa doenças e disfunções, é muito perigoso basear-se na força das paixões e na elegância dos argumentos para definir o tratamento -que tem de ser buscado em evidências concretas coletadas em diagnósticos e práticas já aplicadas. Seria muito negativo se a medicina fosse guiada por debate apaixonado com desqualificação de oponentes e defesa emocional de tratamentos.

É natural que conflitos de interesse acirrem emoções. O importante é manter o foco no dado concreto, observar o resultado de cada proposta e, a partir daí, traçar o caminho não só na economia, mas em todas as áreas do conhecimento.

Hoje, os países com maior progresso econômico ou em melhor situação – no norte da Europa, a China e outros Estados asiáticos ou mesmo os EUA – mostram que o debate baseado na razão é superior ao que se apoia na paixão, por mais fascinante que possa ser o debate apaixonado.

Artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo em 3 de março de 2013.

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