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Henrique Meirelles: “Tensão pré-normal”

O que acontece agora nos EUA, com reflexo no mundo todo, é a aproximação do momento em que o BC norte-americano voltará a tirar recursos do mercado, vendendo títulos e subindo os juros para manter a inflação na meta; leia artigo.

16 de jun de 2013

Henrique Meirellescoordenador do Conselho de Política Econômica do Espaço Democrático e ex-presidente do Banco Central. 

Os mercados mundiais, sobretudo os de ações e de renda fixa, têm sofrido grande volatilidade nas últimas semanas.

Além das incertezas da economia mundial, com a desaceleração na China e os desafios da Europa, a razão principal da volatilidade são as antecipações feitas por agentes do mercado de uma possível retirada de estímulos monetários pelo Fed (o banco central dos EUA) e as dúvidas sobre a eficácia dos estímulos do BC japonês.

À medida que as economias se normalizam, é natural e inevitável em algum momento a retirada desses estímulos.

Quando o Fed iniciou o chamado “afrouxamento quantitativo” (que nada mais é do que a compra de títulos nos mercados pelo BC dos EUA), isso foi saudado por alguns como o fim da ortodoxia dos bancos centrais e da “obsessão com a inflação”. Segundo essa linha de pensamento, os bancos centrais haviam mudado.

Os fatos mostram que foi uma conclusão precipitada.

Em primeiro lugar, porque, numa forte recessão, a inflação tende a cair abaixo da meta. Há, inclusive, o risco de deflação, isto é, queda de preços, o que cria outros problemas para a política monetária.

Nos EUA, depois de todas essas ações do Fed, o cálculo do núcleo da inflação preferido pelo BC norte-americano ficou em 1,05% em 12 meses acumulados até abril. Foi a menor inflação medida por esse índice desde que ele foi criado, em 1959.

Em segundo lugar, numa crise de crédito, os canais de transmissão normais da política monetária deixam de funcionar. Nesses momentos, é vital uma ação rápida e forte dos bancos centrais para restabelecer o crédito.

O Fed, o Banco Central Europeu, em certa medida, e, agora, o BC japonês atuaram justamente para recuperar os canais de crédito e a liquidez, restaurando assim os mais importantes canais de transmissão da política monetária. Normalizada a situação, os bancos centrais voltam a exercer suas funções de forma clássica.

Foram tomadas, portanto, medidas inovadoras e, às vezes, ousadas, mas que não mudam, em essência, os mandatos dos bancos centrais.

O Fed tem deixado claro que, quando a economia voltar à normalidade e subirem as expectativas de inflação, ele passará a vender papéis em sua carteira para contrair a liquidez, e as taxas de juros voltarão a subir.

Os mercados já antecipam esses movimentos, e os juros já subiram moderadamente, o que é uma das razões da volatilidade.

Resumindo, o que acontece agora nos EUA, com reflexo no mundo todo, é a aproximação do momento em que o BC norte-americano voltará a tirar recursos do mercado, vendendo títulos e subindo os juros para manter a inflação na meta.

Artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo em 16 de junho de 2013.

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