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Kátia Abreu: “Correndo atrás do passado”

Fazer política industrial com barreira comercial e subsídio é tentar reviver algo que cumpriu seu ciclo, diz, em artigo, a senadora do PSD.

15 de jun de 2013

Kátia Abreu, senadora e presidente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA).

A industrialização é um velho e eterno sonho da sociedade brasileira. Durante certo tempo, isso fez todo o sentido, pois sociedades industriais e sociedades desenvolvidas eram sinônimos perfeitos. Fomos capazes de realizar esse sonho, construindo aqui uma importante e diversificada economia industrial.

De repente, começaram a soar alguns alarmes: a indústria está perdendo peso na economia, as importações de bens industriais estão aumentando e a maior parte de nossas exportações é constituída de comodities.

Será que economia brasileira está em processo de involução, que precisa ser revertido com fortes medidas do governo? Ou então trata-se de fenômeno mais geral e mundial, cujas causas são variadas e complexas?

Se dermos a resposta errada a essa pergunta, podemos causar graves danos à economia, sem resolver o problema.

A realidade é que a globalização alterou o panorama internacional de vantagens comparativas. Países com grandes populações e baixos salários passaram a dominar a produção de bens intensivos em mão de obra.

As grandes empresas internacionalizaram suas cadeias produtivas, buscando menores custos em todos os recantos do mundo. A ideia de uma indústria nacional pouco a pouco vai perdendo o sentido, porque as etapas do processo industrial se distribuem em escala planetária.

Aos países integrantes dessas cadeias interessa saber que parte do valor final dos produtos se forma nos limites de seu território. Agora, a política correta não é fechar as fronteiras para defender a produção local, mas integrar-se às cadeias internacionais de valor.

Isso requer mercados mais abertos e um ambiente regulatório compatível com as exigências desse processo de integração. E recomenda, sobretudo, que participemos das etapas que agregam mais valor.

Hoje, a indústria se parece cada vez menos com a imagem da velha indústria que guardamos em nossa mente. Tomemos por exemplo produtos de consumo universal, como o iPad ou o iPhone. Eles não são bens industriais clássicos, resultantes apenas da transformação de materiais.

Na verdade, a maior parte de seu valor é imaterial e não se produz em fábricas, mas em escritórios urbanos. Seu valor final de mercado gira em torno de US$ 500, mas apenas US$ 33 deste total representam trabalho de manufatura. E na China, onde são montados, este valor não passa de US$ 8.

Processo semelhante repete-se, em graus variados, numa infinidade de bens industriais. Hoje, ao se falar de indústria e principalmente de indústria nacional, é preciso levar em conta a real arquitetura dos produtos e como a formação do valor agregado se distribui geograficamente. Coisas que mudaram radicalmente.

O grau de industrialização, ou seja, o peso da indústria na sua caracterização tradicional, vem caindo em todo o mundo, à exceção da China. A participação da indústria brasileira na formação do PIB mantém-se alinhada com o resto do mundo. Se ela declinou aqui, declinou do mesmo modo no mundo desenvolvido. A exceção são mesmo os chineses. Se desindustrialização há, ela é, portanto, fenômeno global.

Estamos vivendo uma terceira revolução industrial. Os padrões de consumo estão se modificando. Também estão mudando as maneiras como as coisas são feitas. As fábricas ainda existem, mas elas produzem cada vez mais em menos espaço e com menos gente.

Os insumos imateriais são tão ou mais importantes que os materiais. Os escritórios e os laboratórios são mais relevantes que o chão das fábricas. As linhas que dividem a indústria dos serviços são cada vez mais indistintas.

Industrializar ou reindustrializar não significa mais tentar revitalizar algo que cumpriu o seu ciclo e está desaparecendo. Política industrial, hoje, não pode ser uma corrida para dar sobrevida ao passado, mas para investir na nova indústria, baseada no conhecimento e na inovação.

E isso não se faz com barreiras ao comércio ou com subsídios. Faz-se com educação e em ambiente institucional que premie o espírito inventivo e a coragem de assumir riscos.

Artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo em 15 de junho de 2013.

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