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Kátia Abreu: O futuro se constrói no presente

Em artigo no jornal Folha de S.Paulo, a senadora chama a atenção para os diversos problemas estruturais que impedem o crescimento do Brasil acima de 4% ao ano, e que podem se agravar se não forem combatidos.

03 de mar de 2012

Kátia Abreu, senadora e presidente da Confederação Nacional da Agricultura

“A longo prazo estaremos todos mortos.” Gosto muito dessa famosa frase do brilhante economista inglês John Maynard Keynes (1883-1946). Em sua aparente banalidade, encerra várias mensagens e significados.

Ela é uma apologia à ação presente para corrigir os problemas econômicos conjunturais.

Mas pode ser lida também como a defesa da ideia de que o futuro se constrói no presente, de que a ação -ou a inação- de hoje moldará o que vem pela frente.

Infelizmente, temo que nós, quer dizer, o Brasil, suas elites e seus poderes constituídos, embalados pelo momento positivo pelo qual passa o país, não estejamos atentos a essa lição.

Cuidar para que a inflação não vá além da meta, controlar os gastos públicos, conduzir a política monetária de maneira responsável, tudo isso é fundamental. Mas receio que estejamos negligenciado o futuro.

No longo prazo, como diz Keynes, estaremos mortos. Mas o Brasil, nossos filhos e nossos netos estarão vivíssimos e serão reféns do que fizermos no presente.

Não quero estragar a festa. Há motivos para comemorações e para otimismo. Avançamos consideravelmente nos últimos 25 anos.

Mas não podemos tapar os olhos para os problemas estruturais que impedem que cresçamos de forma consistente mais do que 3,5%, 4% ao ano. São problemas que tendem a se agravar, caso não sejam enfrentados desde logo.

Destaco quatro: a baixa qualidade da educação, o ambiente de negócios desfavorável ao empreendedorismo, a infraestrutura precária e o deficit estrutural da Previdência.

Na educação, ainda é grande a evasão escolar, especialmente no ensino médio, e a qualidade de ensino, mesmo com os avanços recentes, ainda deixa muito a desejar.

Nas avaliações internacionais, ficamos sempre em posições inferiores. No mais recente Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), por exemplo, ficamos em 53º lugar entre 65 países. Aqui, a melhora da qualidade, principalmente no ensino fundamental, deveria ser a nossa prioridade.

Também aparecemos mal no ranking das avaliações internacionais sobre o ambiente de negócios.

De acordo com o relatório “Doing Business”, do Banco Mundial, que avalia as condições legais e institucionais para a realização de negócios, o Brasil está em 126º lugar entre 183 países avaliados.

Quanto à infraestrutura, não é necessário ser especialista para perceber que muito ainda precisa ser feito. Basta pegar o carro e dirigir por nossas estradas, que frequentemente demandam reparos.

Sem falar dos portos, que comprometem boa parte da reconhecida eficiência produtiva da indústria e da agropecuária brasileiras.

Felizmente, o governo Dilma parece estar convencido de que, considerando as nossas restrições fiscais, a maneira mais apropriada para melhorar a infraestrutura do país é delegar a tarefa à iniciativa privada nacional e internacional, que, como ficou provado na recente concessão de aeroportos, tem apetite e recursos para investir.

Falta, contudo, ir mais fundo nessa direção e vencer alguns resquícios ideológicos antiprivatistas que ainda resistem aos fatos.

Por fim, há a grave situação da Previdência Social, especialmente a do setor público.

A redução da taxa de natalidade e a ampliação da expectativa de vida inevitavelmente aumentarão os deficit previdenciários.

Segundo estimativa do Tesouro Nacional, mantidas as atuais regras de aposentadoria, só o deficit da previdência do setor público alcançará R$ 152 bilhões daqui a 20 anos.

Reformar o sistema previdenciário não é uma tarefa politicamente fácil, no Brasil ou em qualquer país. Mas teremos de enfrentar esse desafio.

São problemas que exigem a mobilização de toda a sociedade, mas que requerem, em primeiro lugar, a iniciativa do governo federal.

Afinal, é quem detém a principal parcela da responsabilidade de, em nome da coletividade, agir no presente mirando um futuro melhor para o país.

Artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo em 03/03/2012

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