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Kátia Abreu – “Só há uma cura: a política”

A antipolítica, que criminaliza a política para comandá-la, deságua sempre em ditadura – ou seja, nada mais do que a política em sua manifestação mais odiosa e atrasada, diz, em artigo, a senadora do PSD.

29 de jun de 2013

Kátia Abreusenadora e presidente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA).  

Para os males da Polis, a política é sempre o remédio, mesmo quando é também a doença.

Só se cura a política, seja qual for o estágio da anomalia, com mais política.

A voz das ruas, em regra invocada como sintoma de rejeição à política, nada mais é que o grito primal da política.

Mesmo os que fazem da antipolítica estandarte servem-se da mais antiga e desonesta das formas de ação política: o falso moralismo. Veem o mar revolto e lançam sua rede na expectativa não de acalmá-lo, mas de fisgar alguns cardumes.

É preciso cuidado com os rufiões da revolta alheia. A antipolítica, que criminaliza a política para comandá-la, deságua sempre em ditadura – ou seja, nada mais do que a política em sua manifestação mais odiosa e atrasada.

O Brasil já viveu algumas vezes essa experiência; já cansou-se da dobradinha formada por populismo e autoritarismo, cuja consequência é viciar e desmoralizar as instituições. O Brasil sabe que por aí não há soluções, senão mais e mais problemas.

O que as ruas nos dizem é que é necessário um basta à demagogia e à desonestidade, que resultam naquilo que os protestos expressam: a má qualidade dos serviços públicos – nos transportes, na saúde, na educação, na segurança, na justiça –, a corrupção dos agentes públicos, os temores com a alta da inflação.

Não se pede revolução, mas decência.

Fala-se em insatisfação difusa. Espremendo-se, porém, os slogans, chega-se ao vilão da história: o Estado – aí compreendidos os três Poderes, que de fato merecem o que estão recebendo.

Afinal, falamos de um Congresso dissociado da vontade popular, de líderes políticos contestados por seus representados, de serviços públicos de má qualidade e de uma Justiça morosa.

O Legislativo fica sempre com a maior carga, não por ser o pior, mas o mais transparente. E é o menos problemático, já que, de quatro em quatro anos, renova sua composição nas urnas.

O Executivo renova apenas seu comando – Presidência, governos estaduais e prefeituras –, mas não seu estamento burocrático, em grande parte aparelhado pelos partidos políticos.

O Poder Judiciário, por sua vez, renova-se muito lentamente, dada a vitaliciedade dos seus cargos.

Parece-me, portanto, evidente que também este Poder tem de ouvir a voz das ruas. Não para ser reverente a gritos contingentes, mas para se submeter a seu valor permanente, que é a observância do Estado Democrático de Direito.

Enquanto os parlamentares e os chefes de executivos têm seus nomes e fotos publicados diariamente nos jornais e são apontados nas ruas, os membros do Judiciário são desconhecidos da população.

Não fosse a cobertura intensa do julgamento do processo do mensalão, aliás, o próprio Supremo Tribunal Federal (STF) saborearia o anonimato.

A impunidade é a expressão mais perversa da injustiça. E não se trata de fenômeno recente. Registre-se que este debate se mantém, há mais de um século, atualíssimo.

Mudou alguma coisa? As ruas sabem que não.

A política vai mal, o povo não se sente representado pelos partidos –e isso precisa mudar. Mas, no Brasil de hoje, nenhum Poder está em condições de puxar a orelha do outro.

Não podemos, no entanto, encarar a nossa história, a nossa formação, como um fatalismo. Podemos e devemos mudar essa escrita.

O passado não existe para oprimir a nossa inteligência, mas para nos instruir rumo ao futuro, para nos advertir sobre os erros que já foram cometidos.

Todos navegam nas mesmas águas, turvas e poluídas. O saneamento requer humildade, bom senso e ação conjunta, para que o parágrafo único, do artigo 1º da Constituição – “todo o poder emana do povo”– seja honrado.

Artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo em 29 de junho de 2013.

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