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Kátia Abreu: Ver com nossos próprios olhos

Em artigo, senadora do PSD rebate críticas aos impactos sociais da globalização e diz que o mundo tornou-se menos desigual.

06 de fev de 2012

Kátia Abreu, senadora

Os tempos recentes vêm sendo marcados por grandes deslocamentos. Nações, até pouco tempo relativamente pobres e não muito relevantes, estão assumindo posições dominantes, igualando ou suplantando países que compunham o centro do mundo há alguns séculos.

Na economia e na política, o mundo descentralizou-se totalmente, mas as ideias e as percepções que circulam com mais poder de atração ainda são geradas, quase que exclusivamente, nos antigos centros – os Estados Unidos e a Europa ocidental.

As elites pensantes das sociedades emergentes acabam repetindo essas ideias e percepções sem muito espírito crítico. Dois pensamentos bastante difundidos chamam particularmente a minha atenção.

O primeiro é a noção de que o mundo se aproxima rapidamente do limite de sua capacidade de crescimento econômico e o aumento do consumo pelas populações dos países emergentes pressionará insustentavelmente os recursos naturais.

Há uma forte ironia política nesse argumento, pois é predominantemente sustentado por grupos que se denominam progressistas e estão à esquerda do espectro político.

As antigas esquerdas sempre denunciaram a marginalização das grandes populações do mundo não desenvolvido e pregavam com ardor a incorporação desses contingentes a maiores e melhores padrões de consumo.

Quando essas populações, enfim, por razões mais da economia do que da política, aproximam-se desses níveis desejados de consumo, a nova esquerda liga os alarmes do apocalipse.

Para além da ironia, essas previsões de desastre contêm falhas. Eu concordo que, se o nível de tecnologia se mantiver inteiramente estagnado e se todos os 7 bilhões de habitantes do mundo chegarem a ter o mesmo padrão de consumo das famílias norte-americanas e alemãs, os recursos da terra poderão ser insuficientes.

Mas essa é uma hipótese improvável. O atual padrão tecnológico certamente será alterado pela inovação. Novas fontes de energia, novos materiais e mesmo novas formas de vida urbana serão desenvolvidos por incentivos de mercado ou ação governamental.

Se algum recurso se tornar relativamente escasso, sua demanda será amortecida por uma alta de preços, salvo se os governos interferirem com subsídios. Com preços mais altos, a demanda por esse recurso se deslocará para outros, criando novos equilíbrios. O raciocínio se aplica até mesmo à água, pois a correta precificação de sua escassez na produção de bens (não no consumo doméstico) desestimulará seu uso intensivo e abrirá portas para alternativas.

Também é simplista projetar os níveis e as estruturas de consumo praticados hoje nas sociedades ricas do Ocidente para outras sociedades com história, valores e cultura muito diferentes e que terão poder aquisitivo para imitar esse padrão de consumo no futuro.

Por fim, pode parecer absurdo agora, mas não é uma extravagância imaginar que uma redistribuição das rendas num mundo globalizado possa resultar numa diminuição do consumo exagerado nas sociedades norte-americana e europeia. É cedo, portanto, para falar com tanta certeza de um limite próximo para o desenvolvimento no mundo.

Outra percepção merece reflexão. Cientistas sociais e jornalistas estão agora a dizer, sem contestação, que a globalização está aumentando a desigualdade social. Isso parece ser verdade nos Estados Unidos e na Europa.

Mas, se abstrairmos as fronteiras nacionais dos países ricos, vamos observar exatamente o contrário, pois a globalização elevou a renda de centenas de milhões de seres humanos na China, na Índia, no Brasil, na Indonésia e em quase toda parte.

Sob qualquer ponto de vista, após a globalização, o mundo tornou-se um lugar muito mais justo e menos desigual em termos de humanidade.

Por isso, digo sempre: vamos ver as coisas com outros olhos, nossos próprios olhos.

Artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo em 4 de fevereiro de 2012.

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