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Paulo Simão: ‘A quem interessa perturbar?’

"O mercado imobiliário brasileiro está saudável, maduro e alerta para que suas condições equilibradas não sejam alteradas por quaisquer abusos ou desvios indesejáveis", diz, em artigo, o coordenador do Conselho Temático de Infraestrutura Urbana do Espaço Democrático.

17 de mar de 2014

Paulo Safady Simão, coordenador do Conselho Temático de Infraestrutura Urbana do Espaço Democrático

Volta e meia surgem “especialistas” que anunciam a iminência do estouro de uma bolha imobiliária no Brasil. Utilizando-se somente do aumento nos preços dos imóveis como justificativa, esses “analistas” afirmam categoricamente que viveremos uma situação semelhante àquela que ocasionou a crise norte-americana de 2008.

Nada mais equivocado. Além do preço, existe uma série de condições necessárias para a formação de uma bolha imobiliária. Nenhuma delas se faz presente no país.

Nos últimos dez anos, assistimos no Brasil ao crescimento e à consolidação de um mercado imobiliário consistente. Desde a criação do marco regulatório do setor, em 2004, o segmento tem gerado renda e emprego, reduzido os índices de inadimplência, além de atender à enorme demanda do país por moradia e empreendimentos comerciais.

O marco regulatório resgatou a indústria da construção e do mercado imobiliário de um longo período de paralisia e tornou a atividade atraente, transparente e sobretudo segura. O país vive hoje uma situação bem diferente daquela que gerou a crise americana. Nosso sistema financeiro é um dos mais seguros do mundo. Aqui, a instituição que dá origem ao crédito “morre com o crédito”, ou seja, sempre será a responsável final pelas operações. Esse aspecto praticamente elimina a possibilidade dos chamados derivativos de alto risco.

Além disso, nosso mercado imobiliário ainda é modesto quando comparado a outras economias como a norte-americana e apresenta grande potencial de crescimento. No Brasil, o financiamento imobiliário equivale a cerca de 8% do PIB. Nos Estados Unidos, o financiamento imobiliário equivalia, na época da crise, a aproximadamente 80% do PIB norte-americano.

Cerca de 90% das pessoas que compram imóveis financiados no Brasil não estão fazendo investimentos, mas sim estão adquirindo a sua casa própria, o que resulta em níveis baixos de inadimplência.

O comportamento dos preços dos imóveis no país é resultado da relação entre oferta e demanda. Com mais facilidade no acesso ao crédito e com a melhoria dos níveis de renda das famílias brasileiras, a procura pela compra de imóveis cresceu. Esse fator, aliado a outros aspectos como a falta de terrenos disponíveis nos grandes centros urbanos, provocou o fenômeno da elevação dos valores dos imóveis.

Então, por que algumas pessoas insistem em defender essa tese da bolha, que além de não representar a verdade gera insegurança? Há várias explicações. A mais provável é a falta de conhecimento sobre o setor que, de fato, é complexo.

Outra diz respeito a indivíduos que veem nesse discurso uma oportunidade de se aproveitar de problemas pontuais para desenhar um quadro de crise sistêmica e, com isso, se projetarem como gurus. É aquela velha prática de inventar problema para vender solução. Uma atitude extremamente perigosa para a saúde do mercado e passível de crítica por parte da Comissão de Valores Mobiliários.

Há ainda um terceiro grupo, dos que fracassaram no mercado e tentam alterar na marra as condições de regulação, mexendo nas regras equilibradas para terem, de novo, a chance de operar de maneira menos regrada e menos competitiva.

A liberdade de expressão é fundamental, mas pessoas que emitem opinião sobre o mercado imobiliário precisam agir com mais responsabilidade. Difundir informações inconsistentes significa colocar a economia e a própria sociedade sob ameaça. O mercado imobiliário brasileiro está saudável, maduro e alerta para que suas condições equilibradas não sejam alteradas por quaisquer abusos ou desvios indesejáveis.

 Artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo em 16 de março de 2014.

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