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Rubens Figueiredo: ‘A lição’

"Governantes que surfavam em boas avaliações em pesquisas foram surpreendidos pelas manifestações", diz, em artigo, o diretor do Espaço Democrático.

20 de jun de 2013

Rubens Figueiredo, consultor político e diretor do Espaço Democrático

Embora tenha caído nas últimas pesquisas, a avaliação positiva do governo Dilma Rousseff é a maior que um presidente da República já teve no mesmo momento do mandato. O governador Geraldo Alckmin, também segundo levantamentos recentes, venceria no primeiro turno até o ex-presidente Lula, se a eleição acontecesse há cerca de vinte dias.  O prefeito Haddad também tem uma aprovação expressiva. Não é comum que, em situações como essas, ecloda uma revolta com a força das manifestações dos últimos dias.

As manifestações de rua, até por conta desse aparente apoio da população aos governos citados, foram surpreendentes. Pela dimensão e pela determinação. Para usar uma imagem médica, foi uma espécie de AVC sem que o paciente – no caso, a sociedade – apresentasse, nem ao menos, pressão alta. Por isso, as reações dos envolvidos no episódio – aí incluídos a presidente, ministros, o governador, o prefeito, a polícia, jornalistas e até os analistas – foram a de um boxeador que estava dominando a luta, dando até umas piruetas no ringue e, de repente, recebeu um poderoso “hook” no fígado.

As explicações erráticas e as justificativas nefelibatas beiraram o patético. Sem entender bem o que acontecia, os atores citados oscilaram do batido bordão “é coisa de baderneiro”, passando por “é impossível rever o reajuste”, “o governo federal está à disposição para ajudar a polícia militar”, “gastaram muito na Copa” e chegaram à revisão do reajuste que representa, sem dúvida, a mais expressiva, surpreendente e rápida vitória popular da nossa história.

Expressiva porque forçou a rendição daqueles que são os titulares do segundo e do terceiro maiores  orçamentos da República, do Estado mais importante do País e de uma das maiores cidades do mundo. Surpreendente porque, antes de começar o movimento, nem o mais atento analista privilegiadamente conectado com os astros seria capaz de prever o que aconteceu. E rápida porque, em poucos dias, a coisa – ou, pela menos, uma parte dela, já que as manifestações expressam, no fundo, uma crise de representação pollítica – se “resolveu”.

A “rendição” conjunta de PSDB e PT, que polarizam a política nacional há vinte anos, não deixa de ser uma lição. Quem aumentou as tarifas em conjunto para dividir desgaste, capitulou junto para evitar vexame.Os poderes constituídos foram obrigados a calçar a “sandália da humildade”. A potência e a capacidade de mobilização das redes sociais, aquilo a que o sociólogo espanhol  Manuel Castells deu o nome de autocomunicação, vão muito além dos internautas remunerados que, com seus perfis fakes, falam mal dos adversários. Ali se expressa a insatisfação, ali se mobiliza e se faz, segundo a segundo, a história moderna.

Artigo publicado no Caderno SP em 20 de junho de 2013.

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