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Rubens Figueiredo: ‘Sobre cachorrinhos e cachorradas’

Em tempos de polêmica sobre testes em animais, o diretor do Espaço Democrático diz, em artigo: "Se cada grupo social que defenda uma determinada bandeira achar que tem direito a infringir a lei, aí quem será ferida de morte será a democracia."

24 de out de 2013

Rubens Figueiredo, cientista político, é diretor do Espaço Democrático

A questão do “sequestro” de cachorros no Instituto Royal suscita uma reflexão de maior amplitude. Vivemos numa época que pode ser definida como “turboposicionamento”. Antigamente, lutava-se por liberdade, democracia, igualdade, não violência. Recentemente, o xodó das causas é a defesa do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável.  Eram valores que diziam (e dizem) respeito a todos e nos quais se embasa a organização das sociedades.

De uns tempos para cá, as causas passaram a ter menos amplitude – ainda que algumas se refiram a vastos contingentes sociais.  E, muitas vezes, se tornam cada vez mais específicas. Vamos tomar como exemplo o grupo de gays, lésbicas e transexuais. Primeiro, a reivindicação – justíssima, diga-se de passagem – de não haver preconceito. Depois, que se permitisse o casamento de pessoas do mesmo sexo. A seguir, que pessoas casadas e do mesmo sexo pudessem adotar filhos.

Os “movimentos” se multiplicam com espantosa rapidez. Houve passeata em São Paulo, com os contratempos de sempre, a favor dos professores… do Rio de Janeiro. Médicos tomaram as ruas, ex-funcionários da Varig invadiram prédios, índios se distribuíram pelos gramados do Planalto, pescadores de alguma longínqua praia reclamam seus direitos em avenidas de metrópoles, caminhoneiros fecham as estradas por horas a fio, acampam em frente da casa do governador do Rio de Janeiro, grupo de artistas protestam contra a repressão policial aos “black blocs”  e por aí vai. Daqui a pouco, teremos vegetarianos berrando em porta de churrascaria. Tudo bem: é da democracia, é o direito à livre expressão.

 As redes sociais, por sua vez, reverberam com potência os assuntos que entram, saem ou permanecem algum tempo na moda. Um sociólogo francês, Pierre Bordieu, analisando o fenômeno da opinião pública, descreveu, bem antes do advento do Facebook, o que chamou de “imposição da problemática”. De repente, o cidadão é instado a ter uma opinião – e expressá-la com rapidez – sobre qualquer assunto. Se isso valia para a era pré-redes sociais, imagine só agora. Passamos da “liberdade de opinião” para um tipo de “obrigatoriedade de opinião”. Haja energia mental.

Se as manifestações físicas e virtuais são compreensíveis – embora, é bom que se diga, as primeiras tumultuem vigorosamente a vida do cidadão e as segundas acabem com nossa paciência -, é preciso ter algum tipo de limite. O sujeito pode adorar cachorros (e os da raça beagle são especialmente simpáticos) – é o meu caso – e preferir ficar sem um determinado remédio a ter a consciência pesada por saber que um cão foi usado para testar a fórmula do medicamento. O que não pode é invadir propriedades, confrontar a polícia e atear fogo em automóveis por conta disso.

Se cada grupo social que defenda uma determinada bandeira achar que tem direito a infringir a lei, aí quem será ferida de morte será a democracia. A convicção grupal da justeza da causa não pode embasar a quebra do contrato social que, no final das contas, é que permite a vida em sociedade. Isso não é razoável, não é democrático e não é justo. 

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