
O senador Carlos Fávaro
Redação Scriptum com Agência Senado
Durante audiência pública promovida na quinta-feira (2), na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária, o senador Carlos Fávaro (PSD-MT) lembrou que diante da guerra da Ucrânia e da Rússia, grandes produtoras mundiais, o Brasil descobriu mais uma vez ser preciso aumentar a produção de trigo. “Com a pesquisa atrelada à política pública vamos buscar a autossuficiência”, afirmou o parlamentar, ao comentar a informação de que o País pode se tornar autossuficiente na produção de trigo para consumo em até dez anos.
A afirmativa foi feita durante a audiência por pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que já colheram significativos resultados em suas pesquisas no campo e os apresentaram na comissão. O desafio, disseram, é ultrapassar as quase 13 milhões de toneladas consumidas hoje no país, sendo que atualmente 50% são importadas.
A audiência permitiu debater os resultados das recentes pesquisas da Embrapa quanto à tropicalização da cultura do trigo e as perspectivas de expansão da produção para as regiões Norte e Nordeste. Roraima, Ceará, Piauí e Maranhão são alguns dos Estados que aparecem como novas fronteiras do trigo, hoje produzido em maior parte na região Sul (90%).
Pesquisador em trigo da Embrapa Cerrado, Júlio Albrecht mostrou que a área de produção do trigo está migrando para a região do Cerrado. “Temos, no Cerrado, 204 milhões de hectares e podemos explorar sem derrubar árvores, só cultivando em regiões degradadas. A Embrapa sempre acreditou no trigo nesta região. Temos condições de chegar a autossuficiência e até a exportação de trigo em menos de 10 anos”.
Em termos de custos de importação para o Brasil, o trigo só perde para o petróleo, segundo Albrecht. A aposta é congregar genética, pesquisa e produtores qualificados.
Além da demanda, o trigo é bem-vindo ao sistema de produção por ser uma planta supressora das doenças de solo e de plantas daninhas, além de reduzir a infestação de nematoides (vermes), fornecer palhada para o solo e tornar o sistema de produção mais saudável. “O Cerrado pode se tornar uma terceira ou segundo produtora nacional de trigo. A produção ocorre na entressafra, estamos próximo do centro consumidor e hoje colhemos um dos melhores trigos do mundo para a panificação. Também estamos conseguindo as melhores produtividades”, expôs Albrecht.
A média nacional é de 2,8 toneladas por hectare, mas, em 2021 já houve recorde com um produtor nacional obtendo 9 toneladas.
Situação global
Em todo o mundo são colhidas hoje 779 milhões de toneladas de trigo. A invasão da Ucrânia pela Rússia — dois grandes produtores do grão — mostrou que pode haver desabastecimento diante da paridade que há hoje entre produção e consumo, sem excedentes significativos.
“Rússia e Ucrânia respondem por 30% da produção e o contexto de guerra influencia, sim, nos preços que serão repassados. Esses maiores preços são um atrativo para aumento da produção no Brasil”, afirmou o assessor técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Tiago Pereira.
Na atual safra, segundo Pereira, o Brasil alcançou a marca de 7,7 milhões de toneladas de trigo e para a próxima deve bater em 8 milhões. Ainda são importados 50% do que se consome no país, sendo que desse montante 80% são provenientes da Argentina.
O aumento da produção nacional tem de vir acompanhada da industrialização, segundo o assessor da CNA, assim como da organização de mercado e logística. O país tem hoje 165 moinhos de trigo em atividade.