
“Leite não precisou de muito para ensinar às torcidas e respectivas chefias o sentido da representação de Estado”, disse a jornalista Dora Kramer.
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A aula de civilidade dada pelo governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), a militantes políticos que o vaiaram em evento realizado no sul do Estado esta semana teve grande repercussão na imprensa. Em editorial, o jornal O Estado de S. Paulo afirmou que “a reação do governador à violência retórica lulopetista no ato, no entanto, ofereceu a um país cansado de vandalismo político e analfabetismo cívico uma valiosa aula de civilidade e espírito público”. Na Folha de S. Paulo, a colunista Dora Kramer destacou que “o governador do Rio Grande do Sul tem a metade da idade do presidente da República, mas pareceu ter o dobro em termos de bom senso numa solenidade para assinatura de contratos da Petrobras, na cidade de Rio Grande”.
No texto intitulado “A aula de civilidade de Eduardo Leite”, o Estadão lembrou que “o episódio ocorreu durante cerimônia oficial do governo federal destinada à assinatura de contratos ligados à construção de navios para a Petrobras. As vaias começaram quando o nome de Leite foi mencionado pelo cerimonial (…) e se intensificaram quando o governador foi chamado ao microfone. Como se viu, Leite teve dificuldade para iniciar sua fala. E protestou conjugando serenidade e firmeza: ‘Este é o amor que venceu o medo? Não, né? Vamos respeitar, por favor. Estou aqui cumprindo meu dever institucional. Eu e o presidente fomos eleitos pelo mesmo povo. Somos diferentes. Mas a gente não precisa pensar igual’”.
Para o jornal paulista, “o episódio diz menos sobre o governador gaúcho do que sobre o estado de degradação cívica a que chegou parcela expressiva da militância política no Brasil, sobretudo a petista. O governador não foi vaiado por ter cometido um desvio administrativo, por afrontar a democracia ou por atacar adversários. Foi hostilizado simplesmente por existir politicamente fora do universo lulopetista, por representar uma alternativa que não se submete à liturgia do governismo militante. O constrangimento não foi do governador, mas de quem confundiu um ato oficial da República com um comício partidário”.
O editorial conclui afirmando: “Num Brasil exausto da política do grito e da permanente guerra moral, a atitude de Eduardo Leite aponta para uma alternativa cada vez mais rara: a de que é possível discordar sem destruir, competir sem desumanizar e fazer política sem transformar o adversário em inimigo. A lição está dada. Resta saber quem está disposto a aprendê-la”.
Em sua coluna na Folha de S. Paulo, Dora Kramer reforçou essa visão: “Com o gesto, o governador gaúcho fez muito mais em prol da veracidade dos apelos à moderação que qualquer um de seus colegas de oposição, cujas ausências em cerimônias oficiais só corroboram as diatribes de Lula e atestam a opção pelo atrito no uso impróprio de suas atribuições institucionais. Leite não precisou de muito para ensinar às torcidas e respectivas chefias o sentido da representação de Estado. Bastou exercitar sem máscara as próprias convicções”.