Editorial de O Estado de S.Paulo publicado em 28 de dezembro de 2025
Eis uma agenda imprescindível para o Brasil: recuperar a força perdida de um centro político democrático, moderado e estável. Esteio do eleitor que tradicionalmente privilegia a moderação e o equilíbrio pragmático de ideias, valores e expectativas, coube ao centro servir de fiador da governabilidade, moderador de impulsos autoritários e barreira contra aventuras populistas periódicas que contaminam nossa tradição política.
Foi com o centro democrático que se preservou a convicção de que o Brasil precisava – e precisa – de previsibilidade, responsabilidade fiscal e respeito às regras, virtudes decisivas para navegar crises econômicas e transições políticas sensíveis. Essa tendência é corroborada por diversas pesquisas internacionais, que identificam no eleitorado de centro a aversão a riscos institucionais e uma maior sensibilidade à responsabilidade na formulação de políticas públicas. Os partidos centristas atuam como amortecedores contra polarizações destrutivas.
No caso brasileiro, durante a Nova República, especialmente depois da Constituição de 1988, siglas posicionadas no centro desempenharam papel decisivo na construção da governabilidade. O PMDB (e depois o MDB) foi o principal arquiteto das coalizões presidenciais, estabilizando governos de diferentes matizes ideológicas – de José Sarney a Fernando Henrique Cardoso, de Luiz Inácio Lula da Silva a Michel Temer – e servindo como salvaguarda institucional nos momentos mais críticos.
O centro tradicional, no entanto, foi aos poucos cedendo espaço a algo muito distinto no Brasil: o chamado Centrão, um agrupamento cuja unidade não está em projetos nacionais, mas na habilidade de extrair vantagens imediatas do governo de ocasião. Como este jornal já sublinhou nesta página, o Centrão não é bom nem ruim; apenas é o que o presidente, o governo ou as principais forças políticas de ocasião querem que seja.
Tradicionalmente, o termo carrega uma conotação pejorativa, indicando o grupo de congressistas ideologicamente invertebrados, em especial os deputados do “baixo clero”, que se organizam para se aproximar do governo de turno e angariar vantagens, verbas e cargos para seus redutos paroquiais. Em outras palavras, a encarnação do clientelismo, do corporativismo e do patrimonialismo. Por outro lado, por necessidade ou conveniência, foi o Centrão o fiador das principais reformas e políticas públicas da Nova República, seja em políticas sociais (como o Bolsa Família), sanitárias (SUS), ambientais (Código Florestal) ou educacionais (novo Fundeb).
O problema hoje é outro: o que antes era o ponto de equilíbrio virou um sistema de intermediação de interesses particularistas, blindado contra responsabilidades e avesso a compromissos de longo prazo. Quando a política vira balcão, decisões passam a obedecer a lógicas patrimonialistas. Quando coincide com o interesse público, é por acaso, não por projeto.
Falta ao Brasil uma força moderadora, capaz de combinar responsabilidade fiscal e sensibilidade social, de reconhecer as limitações do presidencialismo de coalizão sem transformá-lo em captura orçamentária, e de conter extremismos sem se submeter à lógica oligárquica. Falta ao País reconstruir esse espaço, como faltam lideranças que compreendam que governabilidade não é submissão, que negociar é democrático e que transformar negociação num fim em si mesmo é sua distorção. Isso exige, ainda, um Executivo capaz de pautar prioridades nacionais – um atributo igualmente faltante neste terceiro mandato de Lula – e um Congresso disposto a resgatar sua função republicana.
“Mais centro, menos Centrão” não é um capricho retórico, e sim uma necessidade estrutural para que a democracia brasileira volte a produzir estabilidade, projeto e horizonte. Sem um centro programático robusto, prosperam os extremos, o desequilíbrio institucional e a deterioração da política. O Brasil precisa, novamente, de um centro que seja centro – não de um Centrão que ocupe tudo.