Loading

Pesquisar

Especialistas na comissão da MP do Futebol: problemas dos clubes vão além das dívidas

Colegiado que é presidido pelo senador Sérgio Petecão, do PSD do Acre, ouviu primeiros depoimentos em audiência pública.

06 de maio de 2015

comissao

Especialistas concordam que é preciso um choque de gestão que leve os clubes a equalizar suas dívidas.

A comissão mista que analisa a MP do Futebol fez nesta terça-feira (5) a primeira audiência pública para debater a matéria, que prevê o refinanciamento das dívidas dos clubes e a criação da Lei da Responsabilidade Fiscal do Esporte (LRFE). A comissão, que é presidida pelo senador Sérgio Petecão, do PSD do Acre, ouviu o editor e fundador do jornal esportivo LANCE!, Walter de Mattos Junior, o consultor de marketing esportivo e colunista do L!Bizz Amir Somoggi e o advogado Pedro Trengrouse. Eles alertaram que a discussão sobre a modernização do futebol brasileiro deve ir além do refinanciamento das dívidas dos clubes – tema da medida provisória – porque os problemas não se limitam a isso.

O consultor Amir Somoggi fez um duro diagnóstico a respeito da realidade gerencial dos principais clubes do país. Para ele, as entidades insistem em um modelo de gestão “sem racionalidade”, “insustentável” e que “caminha de lado”. Ele entende que é necessário exigir um choque de gestão. “Mesmo que se resolva a questão fiscal, não se resolverá a gestão”, disse. “Temos que forçar os clubes a reequalizar suas finanças. Se não repensarmos o modelo de administração do futebol brasileiro, ainda veremos clubes tradicionais fechando as portas”.

Segundo levantamento apresentado por Somoggi, 2014 foi o pior ano da história do futebol brasileiro em termos financeiros. Os clubes da primeira divisão do Campeonato Brasileiro acumularam um déficit de R$ 598 milhões e seu endividamento coletivo soma R$ 6,6 bilhões – o que equivale a dois anos de faturamento. As dívidas são de natureza fiscal, trabalhista, bancária e com fornecedores. Segundo explicou o especialista, não há perspectiva de recuo desses números.

“As receitas não crescem há três anos e mesmo assim as dívidas evoluem”, apontou. “Há dependência quase extrema das cotas de televisão, patrocinadores não estão colocando mais recursos, falta criatividade no marketing e os estádios continuam vazios. Daqui a alguns anos vamos estar falando em déficit de bilhões”.

Mattos Júnior, do Grupo Lance!, se referiu ao modelo de gestão dos clubes como “um atoleiro” e disse que ele é arcaico e incapaz de lidar com os desafios atuais. “O regime de responsabilização é completamente inadequado. A origem associativa dos clubes foi sem fins lucrativos. No entanto, eles são entidades mercantis que faturam milhões, negociam, organizam eventos. Não há dirigentes punidos por gestão temerária, por mais que tenham deixado seus clubes falidos. Não vai haver gestão profissional nesse modelo amador”, criticou.

O empresário acredita que o futebol brasileiro tem potencial para ser um importante elo econômico e social, mas que não existem iniciativas para aproveitá-lo nesse sentido. Ele chega a estimar quanto os clubes deixam de faturar por não estarem melhor estruturados. “O futebol é um grande negócio, tem uma cadeia produtiva sofisticada, emprega dezenas de milhares de pessoas, só que não o exploramos adequadamente”, disse. “Estamos deixando na mesa cerca de R$ 1 bilhão numa atividade que as pessoas querem ir, mas não damos condições”.

O advogado Pedro Trengrouse, especialista em legislação esportiva, criticou a estrutura de poder do futebol brasileiro, que subordina os clubes às federações estaduais e as federações à Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Para ele, o sistema é herança de um regime de exceção.

“Esse modelo foi criado na ditadura do Estado Novo, quando determinou-se que deveria haver uma única entidade para gerir o esporte”, avaliou. “Ele concentra a riqueza na CBF e nas federações. A autonomia da vontade, ser membro por querer ser membro, não estava na origem do sistema. Mesmo assim, ele foi recepcionado na Constituição de 1988 com autonomia. Somos reféns dele”.

O texto da MP estabelece um refinanciamento das dívidas fiscais dos clubes, mas estipula uma série de exigências que devem ser seguidas pelas agremiações que aderirem ao programa. Até agora, nenhum clube aderiu.

Os parlamentares presentes à audiência se dividiram entre elogios e críticas à medida provisória. O deputado Danrlei de Deus (PSD-RS), que foi jogador profissional, enxerga nos atuais dirigentes de futebol boa vontade para liquidar as dívidas, porém falta de condições concretas para tanto. “A vontade de ser correto existe em todos, mas eles não têm condições, porque a dívida que existe hoje é impagável”, disse.

O deputado Andrés Sanchez (PT-SP), ex-presidente do Corinthians e vice-presidente da comissão, afirmou que a medida provisória parte de diagnósticos equivocados. Ele também é contra as exigências impostas aos clubes, que considera invasivas. O exemplo que usou foi a proibição de reeleição para dirigentes de clubes e federações. “Os clubes não estão falidos, isso é balela. A estrutura do futebol é que é desleal”.

Informações Partidárias

Notícias